terça-feira 22 de janeiro




Fernando Eichenberg - Belas conversas de abrir pensamento

 

 
 
Fernando Eichenberg: “Mais importante do que a pergunta original é a resposta original”.
 
 
Márcio Vassallo
 
 
Fernando, na introdução do seu precioso livro de entrevistas Entre Aspas (lançado pela editora Globo), você escreve: “Por vezes, ao final de uma entrevista, me vi pensando o que teria ocorrido se tivesse feito a última pergunta como primeira; se não tivesse apressado uma nova interrogação no silêncio que era apenas pausa e não o fim de uma resposta; se tivesse feito a indagação em tom incisivo e não cúmplice; se não tivesse sorrido em determinado momento; se não tivesse me esquecido desta ou daquela questão; se o encontro tivesse ocorrido à tarde e não pela manhã; se tivesse sido marcado para terça-feira e não quinta”. Que tipos de entrevistas mais te fazem pensar? 
Fernando Eichenberg - Este tipo de “pensamento” a que me referi acima pode ser normal ocorrer depois de uma entrevista, seja no imediato após o encontro ou mesmo em momentos posteriores, quando se faz a releitura do resultado da conversa. Não acredito que haja “tipos” de entrevistas que me provoquem mais ou menos essas interrogações. Depende muito de cada encontro. Nas entrevistas em que a conversa se revelou menos satisfatória ou incompleta é mais comum surgir esse “pensar”, na forma de “o que teria ocorrido se...?”. Mas aí já é tarde demais.
 
Também na introdução, você cita uma declaração do escritor argentino Jorge Luis Borges: “Avaliam-me pelas entrevistas, pela televisão e não pelo que escrevi, que, no fim das contas, é mais refletido, mais essencial para mim. O que se diz depende mais ou menos das circunstâncias, do momento, do humor, mas eu sinto-me responsável, sobretudo, pelo que escrevo e não pelo que digo ou me fazem dizer”. Até que ponto, para você, numa entrevista, o que se pergunta também depende mais ou menos das circunstâncias, do momento, do humor? 
Fernando - Acredito que muitas perguntas são - e devem ser - feitas independentemente de circunstâncias, do momento ou do humor. Outras surgirão a partir de circunstâncias, do momento ou do humor. Quando o entrevistado parece, como se  diz, ter “ligado o piloto automático”, procuro mudar o rumo e o tom da conversa, alterar o tema e o estilo das perguntas, e mesmo a postura. São muitos os recursos para tentar “acordar”, provocar e fazer reagir o entrevistado. A questão é como e quando utilizá-los. Isso vai depender muito da sensibilidade, da capacidade e das intenções do entrevistador.
 
Outro pensamento seu: “São infinitas as condicionais e mais ou menos variáveis os resultados possíveis de uma entrevista, o que só faz afirmar a especificidade de cada encontro. Como aprecia dizer o diretor inglês Peter Brook, uma entrevista é um processo vivo que se estabelece entre entrevistador e entrevistado, e que, por mais preparado que seja, é sempre imprevisível”. Para você, o que é mais surpreendente numa entrevista?  
Fernando - O caráter único e específico de cada encontro já faz parte, para mim, do “surpreendente” de uma entrevista. A própria surpresa de um encontro já é algo surpreendente. É como quando alguém descreve em detalhes sua casa e, mesmo sem desejar, acaba-se criando uma imagem a partir do que foi dito. E quando, finalmente, se entra na casa, será sempre uma surpresa. Antes de uma entrevista, me informo o máximo que posso sobre o entrevistado. Nessa intensa pesquisa, se faz uma idéia do personagem. Idéia esta que será acrescida, subtraída, enfim, modificada na passagem a essa outra dimensão, que é o momento da entrevista. É esse “processo vivo” de uma entrevista que lhe confere o caráter de “surpreendente”. Não me obrigo a sempre fazer perguntas “absolutamente originais”, como já me indagaram certa vez. Nesse tipo de entrevista, me preocupo em fazer perguntas pertinentes, que possam revelar da melhor maneira possível o pensamento do entrevistado, seu perfil, sua personalidade e seu percurso, e também provocá-lo com questionamentos e contradições. Na preparação de uma entrevista, considero sempre o passado, o presente e o futuro do entrevistado. Mais importante do que a pergunta original é a resposta original. E para se obter uma resposta original não é obrigatório uma pergunta original. E muitas vezes uma resposta clara e sincera já tem sua originalidade.
 
Como você mesmo conta, o seu livro reúne encontros realizados na Europa com personagens diversos e em diferentes períodos e situações, ao longo de dez anos como jornalista baseado em Paris. A maioria deles gerou entrevistas publicadas na imprensa escrita (Folha de S. Paulo, Zero Hora, Bravo!, Cult, República etc); outros, foram exibidos na televisão (GNT/Globosat, TVE Brasil). Para esta edição, foram excluídos trechos demasiado datados e perecíveis, e incluídos outros que, por razões editoriais e/ou de espaço, foram abortados das versões publicadas ou exibidas originalmente. Quais foram os grandes desafios de fazer o Entre Aspas? 
Fernando - O desafio maior nesse tipo de entrevista acho que é o de, nessa efêmera relação, conseguir que o entrevistado se sinta à vontade e disposto a falar, seja sobre grandes teses ou coisas corriqueiras e do cotidiano. Que o “processo vivo” estabelecido faça com que baixe a guarda e favoreça a sua exposição, no sentido do discurso e da atitude. Quando entrevistei o escritor italiano Antonio Tabucchi, ele me disse, brincando, antes de começarmos: “Não me obrigue a ser inteligente, vamos bater papo”. Acredito que uma boa entrevista reúne esses dois aspectos: estimular e provocar a inteligência do entrevistado e também bater papo.
 
E como é que nasceu a idéia do livro? Foi a partir de uma pergunta, de uma resposta, de uma constatação, de uma falta, de um excesso? 
Fernando - Foi bem mais simples do que isso. Foi a partir da amizade e da insistência do Luis Fernando e da Lucia Verissimo. Em suas passagens por Paris, a cada vez repetiam que eu deveria fazer esse livro. Como eu não acreditava muito na idéia, eles mesmo marcaram um encontro meu com a Lucia Riff (que é agente literária do Verissimo). Em uma de minhas viagens ao Brasil, conversei com a Lucia no Rio, ela se interessou pela idéia, ofereceu o projeto para algumas editoras e acabamos fechando com a Globo. Devo muito também ao editor com quem tudo começou, o Marcelo Ferroni, que hoje está na Alfaguara.
 
Você de novo: “Instigadas cada uma por um propósito específico, as entrevistas nem sempre se limitaram a um só tema ou aspecto do entrevistado, mas nem de longe ambicionam fazer um retrato definitivo do personagem. São ‘momentos’, ‘circunstâncias’, ‘humores’, captados nos imprevisíveis processos de um encontro, em que há sempre um espaço em branco para entrelinhas, uma pausa repleta de não-ditos, uma resposta inalcançável”. Na sua opinião, de que forma os espaços em branco para entrelinhas, essa pausa repleto de não-ditos e essa resposta inalcançável são essenciais para uma boa entrevista? 
Fernando - Essenciais ou não, os espaços em branco, as entrelinhas, os não-ditos estarão sempre presentes. Se mesmo uma alentada biografia de um personagem é repleta de lacunas ou versões, o que se dirá de uma breve entrevista? Mas acredito que uma boa entrevista não se finge de completa, não tem medo de revelar suas lacunas, não tenta disfarçá-las ou escondê-las, mas se assume como uma parte de algo maior. É o que essa “parte” vai revelar que dirá se a entrevista foi boa ou não.
 
Na sua opinião, quais os grandes pecados de um entrevistador? 
Fernando - Não saber ouvir, querer falar mais do que o entrevistado, interromper um pensamento em pleno desenvolvimento, ser conivente, ter receio de perguntar, fazer de conta que sabe o que não sabe, enfim, a lista é grande e, as armadilhas, numerosas.
 
Por outro lado, que entrevistados mais te incomodam, mais te chateiam, mais te entediam? 
Fernando - Aqueles que aceitaram dar a entrevista, mas que, na hora, parecem não saber o que estão fazendo ali e, antes mesmo de responder a primeira pergunta, só no que pensam é em ir embora.
 
E, até hoje, que tipo de entrevistado, de alguma forma, mais te tira o sono, mais te inspira, mais te seduz? 
Fernando - Todos de alguma forma e em determinado nível me tiram o sono, me inspiram e me seduzem. Inclusive e principalmente personagens “anônimos”, como os que entrevistei em reportagens que fiz, por exemplo, na Bósnia ou na guerra do Kosovo, e que estão no meu primeiro livro, “Viagem” (editora Artes e Ofícios, 2001).
 
Para você, qual a importância da empatia entre entrevistado e entrevistador para uma boa entrevista? 
Fernando - A empatia pode ajudar muito, mas não é algo excludente e regra para uma boa entrevista. Antipatia também gera boas conversas. Boas, no mínimo, no sentido jornalístico.
 
Você já fez belas entrevistas com gente que não tem nada a ver com você nos mais diferentes aspectos? 
Fernando - Entrevistar personagens que não têm nada a ver comigo é ótimo e extremamente instigante, interessante e gratificante. Diria que é melhor do que encontrar entrevistados que, em tese, têm muito a ver comigo. Sou curioso por encontrar pessoas que pensam e fazem diferente em seus diferentes mundos e realidades.
 
Na quarta capa do livro, o jornalista Manuel da Costa Pinto ressalta o quanto você “cultiva a arte da escuta e transforma a fala alheia em documento de cultura”. O que você acha essencial para quem deseja cultivar a arte da escuta? 
Fernando - Simplesmente, saber escutar.
 
No prefácio, o escritor Moacyr Scliar exalta a sua “sábia seleção de nomes” para o livro. “O que temos aqui é quase um ‘quem é quem’ do panorama cultural contemporâneo, e não apenas francês. Escritores (Antonio Tabucchi, Chantal Thomas, Ismail Kadaré), intelectuais (Jean Baudrillard, Paul Virilio, Tzvetan Todorov), atores e atrizes (Fanny Ardant, Charlotte Rampling, Michel Piccoli, Isabelle Huppert), diretores de cinema e teatro (Emir Kusturica, Eric Rohmer, Peter Brook, Wim Wenders, Patrice Chéreau, Jean-Pierre Jeunet), a psicanalista Julia Kristeva, o designer Philippe Starck, o político Michel Camdessus (ex-presidente do FMI), o compositor e maestro Pierre Boulez, o compositor e cantor Henri Salvador, o técnico de futebol Aimé Jacquet, sem falar de lendas vivas como o diretor Jean-Luc Godard e o antropólogo Claude Lévi-Strauss”. Dessa bela seleção de nomes, quais foram os encontros mais encantadores, os mais perturbadores, os mais inesquecíveis? 
Fernando - É difícil responder a essa questão. Para mim, cada encontro teve sua singularidade, sua especificidade, sua importância. Esse “processo vivo” que se estabelece entre entrevistador e entrevistado, como diz o Peter Brook, por mais preparado que seja é sempre imprevisível. Essa imprevisibilidade torna cada entrevista um momento único. Mas, para não deixá-lo totalmente sem resposta, posso dizer, por exemplo, que tive uma certa apreensão antes da entrevista com o Godard, por sua reconhecida instabilidade de humor e sua capacidade de responder a mesma pergunta com um suspiro enfarado ou um longo discurso entusiasmado. Também posso dizer que tive uma certa emoção ao entrevistar Claude Lévi-Strauss, aos 96 anos, ao mesmo tempo lúcido, irônico e amargo em relação à vida. Os três encontros que tive com Peter Brook foram gratas e instigantes surpresas. A Chantal Thomas foi uma agradável descoberta e, desde então, mantemos uma relação de eventuais trocas de livros. E teve a Fanny Ardant, o Michel Piccoli, o Paul Virilio, o Philippe Starck, o Wim Wenders... Não poderia escolher somente algumas entrevistas. Já foi bastante difícil para mim selecionar as 27 incluídas no livro, pois muitas outras tiveram de ser excluídas, senão ficaria extenso demais.
 
Moacyr Scliar termina o seu entusiasmado prefácio com estas palavras: “Em conclusão, pode-se dizer que Entre Aspas é um verdadeiro curso de atualização sobre o nosso tempo. Um curso que nos coloca em contato com figuras exponenciais. E ao nosso preceptor, Fernando Eichenberg, temos de agradecer por tudo: pela genial iniciativa, pela dedicação ao trabalho, pelas qualidades humanas que o tornam um intérprete sensível de idéias, de teorias, de emoções. É grande jornalismo, este, um jornalismo que parte da relação humana como princípio fundamental”.  Numa entrevista, em que aspectos ter como princípio a relação humana realmente é fundamental?  
Fernando - Eu disse ao Scliar que, por causa do generoso prefácio, ele vai acabar sendo acusado de propaganda enganosa. Mas, para responder a pergunta de forma sucinta, considero a perspectiva da relação humana – e do humanismo - fundamental não somente em uma entrevista, no jornalismo, mas na vida como um todo.
 
Na orelha de Entre Aspas, seu conterrâneo gaúcho Luis Fernando Verissimo escreve: “O Fernando Eichenberg, Dinho para os amigos, escreve em Paris, onde é um companheiro constante de futebol do Chico Buarque. Uma vez nos levou, nós e o Chico, a um restaurante italiano de Paris tão lamentável que nunca mais o perdoei, apesar de suas repetidas tentativas de se redimir. Acho que vou parar com a brincadeira. Depois de nos servir este inigualável repasto intelectual o Dinho está pra lá de redimido”.  Fiquei aqui imaginando você, o Chico e o Luis Fernando, num restaurante italiano de Paris. Tinha mais alguém junto? A Lucia Verissimo também estava lá? Qual terá sido o assunto principal (se é que houve algum assunto principal)? 
Fernando - O Luis Fernando e a Lucia e também o Chico passam seguido por Paris e, quando as datas combinam, sempre aproveitamos para partilhar algum cardápio na companhia de um bom vinho nacional. Esse péssimo restaurante italiano, felizmente, foi uma exceção, mas a brincadeira do Luis Fernando ficou e sempre rimos juntos do episódio. Os assuntos à mesa são os mais diversos, mas de um nunca escapamos: futebol. Sofre quem está com o seu time na pior fase.
 
Para que time você torce?
Fernando - Torço para o Grêmio.
 
Ah, eu sou Fluminense, mas tenho muito afeto pelo Grêmio, desde os tempos do centroavante Baltazar. Mas, afetos tricolores à parte, será que às vezes, como num jantar assim, você fica com a tentação de entrevistar os seus amigos? 
Fernando - Fora da mesa, já entrevistei tanto o Luis Fernando como o Chico, mas no jantar impera o espírito Antonio Tabucchi: “Não me obrigue a ser inteligente, vamos bater papo”.
 
Para você, acima de tudo, o que mais torna irresistível um repasto intelectual, Fernando? 
Fernando - A sinceridade e inventividade do chef, a fome e o paladar dos comensais, a qualidade do menu e o prazer da refeição.


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