terça-feira 10 de dezembro



22 DE DEZEMBRO DE 2007 VOLTAR PARA LISTA DE ENTREVISTAS

Claudia Orthof - Para celebrar Sylvia Orthof

 

 
Márcio Vassallo
 
 
Já está no ar o blog da Sylvia Orthof. Como nasceu essa idéia linda?
Na verdade vem de uma idéia antiga de fazer um site da obra dela, que como toda obra muito extensa, acaba dificultando as coisas. Então, resolvemos em casa mesmo, iniciar do jeito possível, neste final de ano, tempo de renascimento. Arrumei o presépio pequenino que a mamãe fez e veio a idéia de compartilhar este presépio, celebrando o Natal com algo feito por ela. Mariana, minha filha, conversando com o marido Zuza sobre isso (geração mais internauta que a minha), facilitou as coisas. Assim, fomos começando, semente germinada. Vovó Trude, mãe da Sylvia, adorava provérbios: "O inimigo do bom é o ótimo!"
 
O que você mais espera deste blog?
Esperamos que seja a semente de uma página/site  bem bonita e original. Talvez a gente consiga patrocínio para fazer uma coisa profissional, criativa, com portas de entrada para crianças, adultos, educadores, artistas, pesquisadores... O blog da Sylvia tem que ter a cara dela, não pode ser uma coisa careta, e isso demanda recursos: humanos, criativos, econômicos. Também demanda tempo e trabalho. Mas quando a gente deseja um caminho tem que começar a caminhar. O primeiro passo foi dado. 
 
Faz dez anos que a Sylvia deixou a gente. O que você acha que ela deixou de mais precioso para a literatura infantil brasileira?
Tenho relido os livros dela. Eu me emociono muito, agora, aos 50 anos, a idade que ela tinha quando começou a se tornar escritora. Reconheço seus motivos de escrever isso ou aquilo, sei que época da vida ela vivia, posso me identificar com suas histórias. A liberdade, o valor da liberdade, está sempre presente. A liberdade de amar o diferente, a liberdade de ir e vir, a liberdade de expressão, a liberdade de ser o que se é... Este é um bem muito precioso quando estamos vivendo um tempo em que se confunde liberdade com o poder da grana: pode tudo quem paga mais. E a liberdade da simplicidade, a liberdade da alegria, a liberdade do amor, a liberdade da criatividade? Este é o bem precioso que ela nos deixou! E o humor, a graça de rir de si próprio, de chorar junto, de se emocionar...
 
E para você, o que a sua mãe deixou de mais precioso?
Para mim deixou muito. Cada vez sou mais grata a tanto que recebi dela, agora mais madura, vou reconhecendo o que ganhei junto com o faltou. E faltou muito, sabe, é delicado falar disso, mas não era fácil ser filha dela. Mas hoje desejo ser sincera quando responder às perguntas e só agora, posso responder assim. Quando nós éramos crianças, ela era muito imatura, não era fácil. Ela vivia tempos muito difíceis em Brasília, início da cidade, mulher de médico, vida cultural zero. Depois, em 1964, teve a ditadura, falta de liberdade, de trabalho, de alegria, de esperança. Ela era ansiosa, aflita, a barra era pesada. Mamãe foi filha única de pais separados, não sabia lidar com família. A gente teve que aprender junto com ela. Depois, quando ela tinha 40 anos, papai morreu. Nós tínhamos 14, 12 e sete anos. Aí, faltava pai, marido, trabalho, grana. Depois, muitas outras faltas. Mas o que ficou mesmo de mais importante foi nunca desistir de acreditar no amor, na vida e na liberdade. E quando mamãe estava doente e depois que morreu é que descobri que o bem mais precioso que ela me deixou foram meus irmãos. Ela conseguiu dar a nós o que ela nunca teve: irmãos amorosos e amigos. E nós três somos pais com relações muito especiais com nossos filhos. Nossos filhos, os netos da Sylvia, são pessoas muito legais... O bem mais precioso que recebi foi acreditar na vida e no amor. É pieguice, mas é verdade.
 
Acreditar na vida e no amor não tem nada de piegas, Claudia... Mas olha, acima de tudo, o que há de realmente irresistível nos personagens, nas histórias, nos textos da Sylvia Orthof?
Acima de tudo, o humor, a capacidade de brincar. Isso é irresistível. Impossível ler um livro dela sem brincar, sem um sorriso e uma lagriminha também... sempre junto, a dor e a alegria. Sempre presente uma simpatia pelo diferente, pelo pensamento original, puxando para dentro quem está fora, convidando para a brincadeira. E a música, as cantigas de roda, as cirandas, as personagens gordas, esquisitas, malucas. Adoro a diversidade cultural dela, que veio de uma cultura européia, você não pode imaginar como meus avós austríacos eram cerimoniosos. Eram doidos, muito diferentes, artistas, judeus ateus, inteligentes, mas falavam alemão, eram cheio de regras, jogavam xadrez e bridge, conheciam música clássica, não davam intimidade, não abraçavam. E ela casou na igreja católica com um médico doidão desquitado e viúvo, com dois filhos de dois casamentos anteriores, nós tivemos uma cultura católica, os santos e anjos aparecem todo o tempo na literatura dela, misturados com presépios. E ela adorava os mistérios esotéricos, antes, muito antes da moda esotérica, ela ia a cartomantes, adorava horóscopo, jogadores de búzios, pesquisava os terreiros de umbanda e candomblé e isso tudo está lá nos livros dela: Yemanjá, São Jorge guerreiro, sereias, cachoeiras. Muito antes da diversidade ser politicamente correta, ela era tudo isso,  transgredindo regras na sua literatura.
 
O que te desafia neste trabalho de cuidar da obra da Sylvia?
O que me desafia é facilitar o acesso à obra dela, tornar conhecido tanto trabalho que ela fez, como ela trabalhou! Mais de 120 livros, alguns com ilustrações dela, muitos textos teatrais quase todos montados por ela com o grupo teatral Livro Aberto, que hoje continua em Petrópolis com o Fernando Vianna.  Gostaria muito de compartilhar com seus admiradores por meio desta riqueza que é hoje a internet, os objetos cotidianos que ela criou, como o presépio que inaugura o blog. Temos almofadas pintadas por ela, bonecos fantoches e marionetes de teatro, cartões desenhados, quadros pintados, bordados malucos, casaquinhos coloridos de crochê para  bebês, uma criatividade transbordante.
 
E o que te preocupa?
O que me preocupa é como conciliar tudo isso com meu trabalho, minha profissão de médica, parteira. Mas isso de se pré-ocupar, já sabemos que não leva a nada. Não é produtivo se ocupar antes da hora. Minha filha Mariana é professora de crianças pequenas e está me ajudando. Tem muita gente na família com variados talentos. O Gê, meu irmão, fez ilustrações de alguns livros dela. A Nina, filha dele, está fazendo teatro lá em Brasília, é contadora de histórias. E tem os amigos da mamãe, muitos viraram amigos nossos, são uma herança preciosa. A gente vai conseguir!
 
Por outro lado, o que te move e o que te entusiasma neste trabalho?
O que me move é registrar tudo isso, não deixar esta obra se perder. Mas o movimento da vida é poderoso, nasceram meus dois netos no ano passado e quero que as crianças da geração deles conheçam Sylvia Orthof. A neta mais nova dela, Sofia, filha do Pedro, nasceu depois que a avó Sylvia já tinha morrido. Imagina que ainda temos textos inéditos dela, é um trabalhão danado separar as coisas assim, de forma amadora. Mas o trabalho amador é feito por amor.Ah, e o que mais me entusiasma é ver quanta gente é apaixonada pelo trabalho dela e por diversos ângulos. Isso é tão interessante! Leitores, contadores de histórias, educadores, pesquisadores, gente de teatro, músicos parceiros, ecologistas. Mas o mais bonito é ver que as pessoas que a conheceram, gostavam muito dela. Ela foi uma pessoa muito especial: criativa, inteligente, engraçada, original, tímida, insegura, amorosa e muito generosa.
 

 



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