terça-feira 19 de setembro



10 DE OUTUBRO DE 2009 VOLTAR PARA LISTA DE ENTREVISTAS

João Silvério Trevisan - Literatura é Revelação

João Silvério Trevisan: “Escrevo para o leitor que tenho dentro de mim, que é muito exigente”.

 
Márcio Vassallo
 
 
Você sempre sente quando está próximo de escrever um livro? Como você começou a sentir as primeiras fragrâncias do seu novo romance, Rei do cheiro?
João Silvério Trevisan – Estou sempre tomando notas, para vários projetos ao mesmo tempo. Com Rei do cheiro, passei mais de 20 anos tomando notas, desde quando ele ainda se chamava “Mr. João, Rei do Cheiro”. Não houve um momento de iluminação específico para deflagrar a aventura literária. Durante todos esses anos, vim amadurecendo a ideia. Escrever romances para mim é sempre muito trabalhoso, pois mergulho com afinco e preciso ficar submerso na ficção. Só então sinto que estou imantado, e aí as coisas vão aparecendo, magicamente, como se a vida atraísse a ficção. Foi dessa maneira, por exemplo, que nasceu o nome Ruan Carlos, durante uma oficina sobre o processo de criação desse romance. Algo semelhante ocorreu com a descoberta do óleo de ylang ylang, icônico na trama do romance. Ou seja, as coisas vieram aos poucos e só se constelaram quando me imantei de vez, num longo processo até conseguir combinar o tema com o tipo exato de abordagem literária. É como uma viagem de imaginação junguiana, em que você se exercita até ficar próximo da complexidade do inconsciente.
 
Na orelha do livro, publicado pela Record, Horácio Costa entra na alma da história: “Rei do cheiro se desenvolve ao redor de um certo Ruan Carlos, de caráter bem brasileiro, que recorda a grande série de malandros nacionais, um self-made man tupiniquim, ou seja, um dos nossos particulares ´heróis sem nenhum caráter´, que sofre de uma particular sudorese, considerada por ele mesmo vergonhosa. As manchas debaixo de seus sovacos, a bem dizer, interpõem-se entre o seu corpo e os álgidos planos de protagonismo capitalista de Ruan, e os sonhados ternos de grandes costureiros internacionais. São a sua marca de origem, mas, num gesto de criatividade, Ruan dedica-se a construir um império de perfumaria que o coloca na linha de ponta do empresariado nacional”. Uma personagem, antes de seduzir os leitores, precisa seduzir o seu criador, claro. Em que aspectos Ruan Carlos mais te seduz?
João Silvério Trevisan  – De início, senti repulsa pelo caráter calhorda de Ruan Carlos, e cheguei a ficar travado no início da escritura do romance. Tive que buscar o cafajeste dentro de mim, para me encontrar com meu protagonista. Ele realmente me seduz no momento em que, quase à morte, se reconcilia consigo e com o mundo, na figura do seu irmão gêmeo. Aquele é um trecho do livro que fala diretamente à minha alma.
 
No seu livro Seis balas num buraco só (Record), como diz na orelha a antropóloga Mirian Goldenberg, você revela como é pesado o fardo de ser homem, com a obrigação de ter coragem sempre, mostrar-se durão, enfrentar o mundo através da força e crueldade, para provar que é “um homem de verdade”. Para você, quais são as maiores provações de ser homem?
João Silvério Trevisan  – Acho chato e cansativo que sempre se espera do homem que ele seja seguro e corajoso. Homens são mestres em se fingir de homens. É uma triste condição: dissimular certas verdades pessoais para encontrar-se com o estereótipo social do macho. Uma das coisas mais belas e gratificantes que a prática homossexual me ofereceu de presente foi essa possibilidade de interagir com homens sensíveis, homens de verdade, não modelos de masculinidade vazios, artificiais e irreais.
 
Sobre o teu Devassos no paraíso – a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade Néstor Perlongher escreveu na Folha de S. Paulo: “História do deboche, Devassos no paraíso é, porém, fruto de um trabalho de pesquisa extremamente sério e minucioso, que expõe uma massa de documentos (...), que fluem com generosidade barroca”. Acima de tudo, o que você buscou com esse livro? No percurso dessa busca, o que você encontrou que não esperava encontrar?
João Silvério Trevisan  – Ao escrever Devassos, eu buscava, antes de tudo, me conhecer e reconhecer meu papel na história enquanto homossexual. Foi também um processo de celebração. Esse livro me colocou mais perto do amor, mesmo ali onde eu não esperava encontrar.
 
Por sua vez, o crítico André Seffrin escreveu que o livro de contos Troços e destroços traz os teus “inumeráveis e domesticados demônios, numa prosa escancaradamente lírica que também é experimental e agônica”. Quais são os teus demônios mais domesticados, Trevisan?
João Silvério Trevisan  – Meu grande demônio é, provavelmente, o GRANDE demônio da alma humana: o suicídio. Há outros como o medo, o desamparo, a solidão. Não sei dizer até que ponto estão domesticados. Talvez a criação literária funcione um pouco como fator de adestramento desses demônios.
 
Uma das suas obras mais lidas até hoje é Ana em Veneza. Quando foi à Feira do Livro de Frankfurt lançar a edição alemã desse livro, você conta que se sentiu muito emocionado com todas as belíssimas homenagens e manifestações de admiração que recebeu no país, numa turnê por sete cidades, e lembra que ouviu a seguinte frase de Doris Engelke, gerente de literatura da editora Eichborn: “Talvez você não saiba, mas escreveu um romance à altura do prêmio Nobel. Pena que ainda não tenha 80 anos...”.  Em que sentido o reconhecimento te empurra para escrever? Você escreve para se reconhecer?
João Silvério Trevisan  – Absolutamente não. Escrevo para o leitor que tenho dentro de mim, que é muito exigente. Mas acho sim que está na hora deste país me reconhecer melhor. Primeiro, é bom ser lido, por quanto mais pessoas melhor. Segundo, o reconhecimento pelo trabalho é importante quando reverte para sua sobrevivência. Tenho vários prêmios, mas até hoje só recebi R$ 300,00 de um Jabuti. Não dá para dizer que isso é um reconhecimento de verdade, concorda?
 
Você escreveu uma vez que a personagem  Gustav Sternkopf, de Ana em Veneza (um pintor furioso, alcoólatra, autodestrutivo, desprezado e exilado no seu tempo) manifesta a ideia do artista como pára-raio do gênero humano, como no trecho do romance:”Isso que se chama arte dói muito, Ana. É como se a gente tivesse que superar a todos, inclusive a gente mesmo. Ser a exceção. A arte exige que se fique na ponta dos pés e se ande na ponta dos pés, puxando um outro ar que vem mais de cima, um ar de êxtase. Ela é a essência do humano, como se a vida fosse se decantando e se transfigurando até ficar maior do que si mesma. A arte é superação da vida, mas sem a vida não haveria arte”. Andar na ponta dos pés dói. Se é que ela tem mesmo que ser compensada, o que mais compensa essa dor? 
João Silvério Trevisan  – Nada, feliz e infelizmente. Acho que o ato de criar está diretamente relacionado a um longo processo de auto-conhecimento, que é sempre dolorido. A gente cria para se conhecer melhor e melhor conhecer o mundo. Os frágeis momentos de epifania poética da criação seriam talvez um consolo, mas não uma completa compensação.
 
Você já disse uma vez que, quando vai viajar, sempre sente a decolagem de um avião como um momento de encantamento. O que há de mais encantador numa decolagem? Em que momentos será que aterrissar também te encanta?
João Silvério Trevisan  – Quando o avião decola, sinto como se a vida fosse colocada entre parêntese, num ato que beira a aventura total, quase um sonho de olhos abertos. Mas quando as pernas começam a doer, nos voos mais longos, aí acaba o parêntese. É a mesma sensação de aterrissar: volta à vida, fim do parêntese de sonho.
 
Se você fosse escolher apenas uma obsessão para refletir a essência da sua literatura, qual escolheria?
João Silvério Trevisan – A solidão e seu desdobramento, o desamparo.
 
Num dos textos de Pedaço de mim, você lembra seu O livro do avesso: “Nele falo de um escritor que tudo plagia (leia-se: apropria-se de tudo o que ama)”. Para você, o que move em nós esse desejo de nos apropriarmos de tudo o que amamos?
João Silvério Trevisan – É o medo da solidão, a necessidade de ser amado. É como se a gente conquistasse o ser amado para garantir o seu amor. Quando amo um conto de Borges, por exemplo, eu posso reescrevê-lo para estar mais próximo do autor, pois sei que é vão tentar repeti-lo.
 
Palavras suas, numa palestra realizada no Instituto Moreira Salles reproduzida em Pedaço de mim: “(...) o escritor é um ser imperfeito, suspirando pelas coisas perfeitas. Em resumo, um desadaptado (...). Escritor é alguém que sofre de uma fragilidade implícita”. Que coisas perfeitas te fazem suspirar no dia a dia? O que alimenta essa fragilidade implícita do escritor?
João Silvério Trevisan – Tenho uma noção bastante acentuada da imperfectude do mundo. A necessidade de ler, ver filmes e me comunicar com obras de arte em geral vem daí, pois esse tipo de empatia ou diálogo me faz sentir vivo, me realimenta. É como se o mundo fosse mais completo através do contato com os artistas que amo. Essa gente visionária é que nos põe mais perto do mistério do mundo.


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