quinta-feira 20 de fevereiro




Adriana Falcão - Em Frente com as Viradas

 
 
Maria Eduarda, Leonardo Miranda, Adriana Falcão e Márcio Vassallo - foto de Leonardo Miranda
 
 
 
Márcio Vassallo
 
 
A arte de virar a página é um livro frases poéticas desdobradas numa série de fotos com muita poesia e bom humor também. Como nasceu esse projeto?
Adriana Falcão - Nasceu de uma forma muito original. A Isa Pessôa (editora da Objetiva) já vinha há algum tempo me sugerindo que fizesse um livro que fosse algo assim, algo assim... Então, ela me dizia que gostaria que eu escrevesse "algo assim", sem saber exatamente que livro queria, e um dia me sugeriu que eu fizesse um livro mais ou menos como o Mania de explicação, só que voltado para os leitores adultos, que fosse, popular e ao mesmo tempo sofisticado. E eu fiquei tentando adivinhar o que a Isa queria, porque eu gosto muito dela e queria fazer esse livro com ela. Foi quando me lembrei de que, há dois anos, passei três meses na França e lá ouvi várias vezes a expressão tourner la page. Nunca tinha ouvido essa expressão antes. A primeira vez que ouvi foi mesmo em francês. Achei interessante. E aí me veio a ideia de fazer um livro com essa brincadeira de virar as páginas da vida. Na mesma hora, pensei em algumas situações em que a gente precisa virar a página, mas logo fiquei na dúvida: será que esse livro deve ter ilustrações, será que deve ter fotos, será que deve ter imagens? Que imagens seriam essas? Foi quando eu comentei com o João a minha ideia e ele me disse: "Acho que o título poderia ser A arte de virar a página e quem deveria fazer esse livro é o Léo, porque ele faz um misto de fotografia com ilustração. O Léo brinca muito com as fotos.
 
E você levou o projeto para a Isa?
Adriana - Sim, contei para a Isa. Ela adorou o título do livro e a possibilidade de trabalhar com fotografias. Mas quando eu disse que tinha um menino amigo meu que era muito bom com fotos, ela fez uma cara de desconfiada. Sempre que você recomenda um amigo seu, filho, ou irmão, para algum trabalho, e diz que ele é super jovem e muito talentoso, o cara está ferrado, porque a pessoa, por mais que confie em você e tenha muita sensibilidade, realmente acaba desconfiada. Na maioria das vezes, parece que a gente está tentando arrumar  trabalho para um morto de fome ou para um iniciante, não é? Eu disse para a Isa que o Léo trabalhava muito bem com as fotos no computador. Ela fez uma cara de quem pensou em photoshop, ou qualquer coisa do tipo. E eu disse logo: "Isa, não é isso que você está pensando, não, é muito mais moderno do que isso que você está pensando".
 
Adriana, você adivinhou o livro que a sua editora queria e depois adivinhou o que ela estava pensando?
Adriana - Foi isso mesmo, eu adivinhei tudo. Depois, pedi ao Léo para fazer umas fotografias em cima de algumas frases minhas. Ele me apresentou várias fotos que já tinha feito com a Maria Eduarda e também com outras modelos, montou esse material, adaptou as imagens às situações do texto e a gente levou tudo para a Isa ver. Uma das fotos era esta da capa do livro. E quando a Isa bateu o olho, ficou entusiasmada, disse que a Maria Eduarda seria a modelo e que aquela foto seria a capa do livro. Por isso, para mim, este não é um livro só da Adriana Falcão. Ele também é do Leonardo Miranda, da Maria Eduarda e da Isa Pessôa. Sem essas quatro pessoas, esse livro não teria existido. É diferente de um livro que o autor escreve, o ilustrador ilustra e o editor edita. A Isa teve uma função essencial como editora e o Léo foi muito mais do que um fotógrafo ou um ilustrador. Para completar, eu não vejo o livro sem a Maria Eduarda de modelo, fazendo tão bem o papel da personagem. Ela me inspirou muito. Mais do que a quatro mãos, este foi um livro escrito a quatro pessoas.
 
Leonardo Miranda - Para todos nós, esse foi mesmo um trabalho de adivinhação. Quando a Adriana me mandava as frases, eu também tentava adivinhar que sentimento ela teve quando escreveu os textos, para achar a melhor imagem... A gente conversava e trocava muitas ideias, claro, mas chega uma hora que só adivinhando realmente.
 
E você, Maria Eduarda, como modelo, foi adivinhando o que o Leonardo queria em cada foto?
Maria Eduarda - Foi assim mesmo. Era muito engraçado. Tinha vezes que o Léo me dizia: "Faça umas caras aí". E eu fazia, sem ter a menor ideia do que ele queria e no que iria dar. Então, foi um desafio para todos nós mesmo. E, apesar de conversarmos muito, como o próprio Léo disse, havia um momento em que tínhamos que adivinhar o que o outro queria. Até que, finalmente, achávamos o melhor caminho e a melhor forma para cada imagem.
 
Adriana - E olha, depois de ver uma foto da Maria Eduarda para uma frase do livro, não me lembro agora qual, eu acabei mudando essa frase, em função da foto. A Maria Eduarda realmente me inspirou muito. Ela me abriu uma personagem. Ela construiu a personagem e me abriu. E as ideias do Léo também me abriram. 
 
Adriana, eu também imagino que muitas vezes você nem soubesse direito qual foi o seu sentimento na hora de escrever as frases, não é?
Adriana - Sim, foi muito difícil. E nem sempre a gente sabe o que está mesmo sentindo quando escreve. O que nos ajudou na elaboração desse livro foi que nós temos muita sintonia e facilidade para trabalhar em parceria. Se o Léo fosse o Ziraldo, por exemplo, eu não ficaria ligando para ele às onze e meia da noite para sugerir coisas, trocar ideias e construir o livro junto. Ainda quero muito fazer um livro ilustrado pelo Ziraldo, mas será outra proposta, claro. 
 
Leonardo - Alguns fatores também ajudavam muito a gente no processo do livro, mas também nos enlouqueciam. Numa frase da Adriana, por exemplo, "Finais de namoro deixam a gente na pior", a Maria Eduarda aparecia numa foto sentada sozinha, num banco de praça, com uns pombinhos por perto comendo milho. A Adriana gostou, mas sugeriu que eu colocasse o fundo da cena com umas nuvens pretas em volta. Porque tínhamos a possibilidade alterar todos os elementos da foto, para aprofundar os sentimentos e tornar a linguagem ainda mais pop.
 
Adriana - E duas frases acabaram não entrando no livro, porque  a gente não conseguiu pensar em imagens que servissem para elas. A primeira era assim: "Não há consolo para uma injustiça". E a frase da página seguinte era: "Não queremos consolo, queremos justiça".
 
Leonardo - A gente percebeu que era mesmo difícil virar a página de uma injustiça...
 
Adriana - Sim, o caso daquele menino que foi arrastado pelo carro, por bandidos, por exemplo... Essa página é invirável. Você pode tomar um remédio e dormir, pode até mudar de assunto, mas uma página assim você não vira nunca, principalmente se for uma pessoa muito próxima desse menino.
 
Tem páginas que não devem ser viradas mesmo?
Adriana - Acho que sim, tem páginas que não devem ser viradas. Veja o caso da Igreja católica. Eu sou religiosa, rezo todas as noites. Mas até hoje a Igreja católica vive de não virar a página do que aconteceu com Jesus Cristo. Já pensou se a Igreja virasse a página da crucificação. "Ah, crucificou, está crucificado, tudo bem, vamos virar a página"... Já pensou?
 
Leonardo - Dizem que Jesus Cristo foi o maior promoter da História, porque foi a única pessoa que deu um jantar para 12 pessoas e conseguiu ser comentada até hoje...
 
Sem mídia nenhuma...
Leonardo - Exatamente, sem gastar nada com divulgação.
 
Adriana - O mundo também não virou a página do Holocausto, justamente para que isso sirva de exemplo e não se repita nunca mais na História. Ninguém pensa: "Vamos esquecer esse negócio aí que o Hitler fez, vamos deixar para lá, vamos virar a página". Essa e outras páginas, de fato, não devem ser viradas. Cristo é um exemplo que faz até hoje as pessoas pensarem em muitas coisas importantes. Se virassem a página do que aconteceu com Jesus, um monte de pensamento não ia ser pensado. Nem tudo é para virar a página, claro que não.
 
Maria Eduarda - E tem aquela sutileza que você diz no livro também, Adriana, sobre traição... Num casamento, por exemplo, você vive uma traição, mas se quiser dar continuidade ao seu relacionamento, não vai poder virar a página tanto assim, sem saber o que realmente aconteceu, os motivos, e tudo mais... Nesse caso, será que é melhor virar, ou não virar a página? Na realidade, cada um vai ter que saber que decisão será a melhor e fazer a sua escolha.
 
Adriana, como lembrou a Maria Eduarda, você diz no livro que “uma traição pode deixar a gente sem chão”.  Que outras coisas fazem a gente perder o chão?
Adriana - A morte deixa a gente sem chão. Perder alguém que a gente ama também. Outro dia li uma frase bonita do Fabrício Carpinejar. Eu adoro esse poeta. Diz mais ou menos assim: "Passei a vida tentando respeitar o seu espaço. Como preenchê-lo, agora que você foi embora?".
 
Maria Eduarda - É verdade, nós passamos a vida tentando dar espaço para alguém que amamos, e às vezes temos que descobrir como preencher esse espaço que nós demos para o outro.
 
Leonardo - Tem outra frase muito bonita da Adriana, no livro, que diz assim: "Mais triste do que perder alguém que a gente ama só se a gente perdesse a memória". Perder a memória também deixa a gente sem chão.
 
Adriana - Isso sem falar em coisas absurdas e impensáveis... Sei que se um dia (Deus me livre) eu perder uma filha, eu me mato. Não quero nem pretendo me matar, mas sei que não conseguiria viver sem uma delas. Um dia, por exemplo, a minha filha menor teve meningite. Fui levá-la ao médico com a roupa da academia. Então, enquanto estavam fazendo os exames, eu fiquei olhando pela janela, para ver onde é que eu ia cair, se tivesse que me jogar, caso acontecesse alguma coisa com ela. E eu avisei quem estava comigo lá: "Vocês vão ter que me enterrar com a roupa da academia mesmo, porque eu não vou até em casa tomar banho". Aí as minhas filhas me perguntam: "Mas e as suas outras filhas?". E eu disse: "Problema das outras duas". Porque isso não é nem tirar o chão, para mim, é inviabilizar a vida. Por falar em inviabilizar, em vez de o Márcio estar fazendo uma entrevista com a gente, é a gente que está fazendo uma terapia com ele, para resolver tudo quanto é problema, não é?
 
Maria Eduarda - É verdade, a gente está aqui viajando...
 
Mas viajar é bom, porque a gente sai do chão. E perder o chão também pode ser uma delícia, vocês concordam?
Maria Eduarda - Ah, tem razão, eu concordo. Ver o Flamengo campeão me fez perder o chão e foi maravilhoso.
 
Leonardo - É verdade, um bom beijo também pode fazer a gente perder o chão.
 
Adriana - Engraçado, Márcio, eu nunca tinha pensado que perder o chão poderia ser uma coisa boa, mas é verdade... Estou pensando nisso agora. Olha a gente aqui fazendo terapia.
 
Leonardo - Eu também não tinha pensado nisso... Quando alguém fala em perder o chão, é muito mais fácil a gente fazer uma associação com alguma coisa ruim.
 
Maria Eduarda – Mas olha, acabei de me lembrar de outra questão que foi importante para o livro. Eu me lembro que cheguei querendo fazer maquiagem e me produzir toda para as fotos, mas o Léo me dizia que não podia ter nada disso. E eu pensava: "Meu Deus, as pessoas vão ver o pior de mim, com espinha, manchinha, a cintura aparecendo toda"... Mas foi maravilhoso, porque os leitores estão se identificando.
 
Leonardo - No começo, tínhamos receio de que o livro caminhasse para alguma coisa brega ou cafona. Não queríamos isso. Queríamos que o livro fosse sincero, mas que também tivesse uma cara diferente...
 
Vocês buscaram um trabalho autêntico, e conseguiram. O livro tem a impressão digital da escritora, do fotógrafo e da atriz e modelo, sem perder a unidade editorial. Agora, identidades à parte, em que sentido, acima de tudo, para vocês, virar a página é uma arte?
Adriana - Vou começar, porque sou a mais velha daqui. Penso agora nas minhas três filhas, que não são mais crianças. E criança costuma virar a página muito fácil, não é? Se a menina cai e se machuca, você pega no colo, dá um carinho e diz: "Ah, vem cá, vai passar, vai passar, mamãe vai soprar, pronto, passou, passou...". Se a criança está triste, você pergunta: "Vamos tomar um sorvete?". E pronto, a criança sai com você e quase sempre acaba esquecendo a tristeza. Depois as coisas mudam. Hoje em dia, as minhas filhas têm 16, 19 e 30 anos. E eu fico o tempo todo, com elas e comigo mesma, tentando virar páginas. Então, sempre conversamos sobre isso, para não carregarmos pesos pelo resto da vida. "Foi ruim, foi; brigou, brigou; foi chato, foi; acabou, acabou; morreu, morreu". Como diz o meu acunputurista, chega uma hora em que a gente precisa dar a descarga. Tem um momento em que não adianta mais ficar discutindo coisas ruins, andando e m círculos, porque isso não vai levar a nada. Tem que dar a descarga mesmo.
 
Nem tudo é para ser um folhetim?
Adriana - Exatamente, nem tudo é para ser um folhetim. E, só para completar, acho que uma das melhores maneiras de virar a página é com humor. Muitas desgraças aconteceram na minha vida. O meu pai se matou, a minha mãe morreu de overdose, eu passei um ano achando que tinha um câncer, o meu melhor amigo morreu assassinado. Esta é a lista das minhas desgraças. Mas depois que você consegue ver a desgraça com um humor bom, falar nas pessoas de novo com alegria, aí você está virando a página daquela dor. Não para esquecê-la, não para tirar da memória, mas para viver mais feliz. Às vezes acontece uma coisa ruim na vida da gente, e alguns dias depois, aqui em casa, uma das meninas, o João, ou eu mesma, perguntamos assim: "Já pode brincar com o assunto, ou ainda está no limbo?". E essa é uma realidade. Se a gente não vira a página, e só fica se lamentando, a vida não anda para frente.
 
Maria Eduarda - A minha mãe é psicanalista e o meu pai é psiquiatra. Então, eu sou um caso clínico. Faço análise desde que me entendo por gente. Isso tem um lado muito bom, mas tem um lado que atrapalha, porque eu fico remoendo e trabalhando várias questões, sem virar a página. E o que me salva disso também é o humor. Acho difícil, com dor ou alegria, não olhar por um viés cômico o pior e o melhor acontecimento. Eu me sinto ainda engatinhando nessa arte. Mas o humor realmente me salva.
 
O humor te dá alta, Maria Eduarda?
Maria Eduarda - O humor me dá muita alta, sim. Eu me sinto um pouco Woody Allen. Sou muito apaixonada por ele nesse sentido, por ser uma pessoa que conhece minuciosamente todas as suas mais bizarras neuroses. O Woody Allen é genial, porque consegue transformar o seu pior problema na sua melhor piada.
 
Adriana - E talvez essa também seja a maneira que ele encontra de virar as suas próprias páginas, não é?
 
Maria Eduarda - Acho que sim. O humor é mesmo essencial para a gente virar páginas.
 
Leonardo - Também acho que o humor é fundamental para isso. Muitas vezes, se não virarmos a página ficamos estagnados, segurando orgulhos, mágoas e ressentimentos, por exemplo, que não levam a nada.
 
Adriana - Tem uma frase do Shakespeare que me ajudou muito a escrever esse livro: "Guardar um ressentimento é tomar um copo de veneno e esperar que a outra pessoa morra". Isso é tão bonito, não é?
 
Leonardo - Sim, engraçado também foi que havia determinados momentos, na escolha das imagens para as frases, em que a gente precisou virar a página do próprio livro, caso contrário não terminaríamos nunca.
 
Uma provocação para vocês: ao mesmo tempo que é importante virarmos as páginas da nossa vida, para não estagnarmos em coisas ruins, hoje em dia também existe uma ditadura da velocidade, uma pressão muito grande para que todo mundo vire a página bem rápido e siga em frente, sem nem digerir os próprios sentimentos no seu ritmo. O que vocês acham disso?
Adriana - Sim, Márcio, eu concordo com você. As pessoas estão precisando de mais tempo para viver os seus lutos, as suas perdas, cada um no seu próprio tempo, para pensar sobre isso. E hoje em dia ainda existe a indústria farmacêutica. Antigamente, você sofria quando perdia um namorado. Hoje, você toma um frontal, e pronto. Tem vezes que vejo as minhas filhas tão agoniadas, sem dormir, e me flagro oferecendo um dramin para elas. Acho que você tem razão mesmo, mas por outro lado penso que tudo está correndo tanto, com uma pressa tal, que na maioria das vezes a gente não tem realmente o tempo que tinha antes. Para curar uma dor de amor a gente levava seis meses, hoje acaba tendo que curar em menos tempo. Não digo que isso é melhor nem que é pior. É só uma constatação.
 
Leonardo - Concordo também. E acho que muitas vezes a pessoa não respeita o seu próprio tempo para superar uma situação, e acaba rasgando a página, em vez de virá-la. É claro que também muitas vezes a pessoa nem pode mesmo virar a página. Alguém tem um parente assassinado, por exemplo, mas não pode abrir a boca para falar sobre o assunto, senão será assassinado também. Aí não tem jeito.  
 
Adriana - Assim como a Maria Eduarda já disse, eu também estou engatinhando nessa arte de virar a página. Mas o fato é que a maioria dos jovens acha que uma coisa é virar a página e outra é engolir sapos. Só que realmente, para virar uma página, muitas vezes a gente tem que engolir sapos, sim.
 
Maria Eduarda - Os jovens têm mesmo muita dificuldade para engolir sapos.
 
Pior que engolir é mastigar sapos, não é? E se for um sapo da Amazônia, ou outra espécie de sapo parrudo, a gente vai ter que mastigar ainda mais, antes de engolir. 
Adriana - É verdade, ainda tem isso. Nem todo sapo dá para engolir rápido. E quem não sabe engolir sapos tem muita dificuldade para virar páginas. Nem sempre isso é mesmo possível. Eu acho que é muito difícil uma pessoa engolir o sapo de uma traição e virar a página, por exemplo.
 
Adriana - A gente inventa medo de avião para se prender. Eu inventei esse medo, quando tive as minhas filhas.
 
Maria Eduarda - Eu inventei esse medo agora, viu?
 
Adriana - O meu medo de avião passou, depois que as minhas filhas cresceram. Agora a mais nova está com 16 anos. Então, se eu morrer, morri. Mas como agora vou ser avó (a Tatiana está grávida de três meses), voltei a ter esse medo. Não que o bebê não possa viver sem mim, mas eu é que não quero morrer sem ter esse prazer de ser avó. E é óbvio que eu não quero morrer, é muito cedo para eu morrer...
 
É bom você deixar isso bem muito claro agora, Adriana...
Maria Eduarda - Eu sempre deixo isso muito claro, quando entro num avião.
 
Adriana - Olha, Maria Eduarda, eu vou te ensinar a rezar para São Miguel. Ele não deixa o avião cair, não.
 
São Miguel é o protetor dos controladores de voo?
Maria Eduarda - Bem que podia ser, não é?
 
Sim, depois dessa informação preciosa aí da Adriana, deveria haver uma imagem gigante de São Miguel em todas as salas de controle de voo do mundo, nas cabines dos pilotos, nas carteiras dos comissários de bordo...
Adriana - São Miguel é protetor dos viajantes. E ele é um gato, é lindo. Em Paris, tem uma imagem dele lá sem camisa, sarado, é bonito mesmo. E eu sempre sugiro a quem vá viajar de avião: "Boa viagem, reze para São Miguel". A reza é fácil: "São Miguel na frente, São Miguel atrás, São Miguel à direita, São Miguel à esquerda; São Miguel acima, São Miguel abaixo. São Miguel, São Miguel, onde quer que eu vá, eu sou seu amor que protege aqui”. Você pode repetir três vezes esse final. Imagine sempre que São Miguel está por todos os lados, protegendo o avião. No meu caso, toda vez que o avião aterrissa, eu agradeço: Ah, São Miguel, obrigado... São Miguel é fogo, São Miguel é um danado.
 
Mas não vale rezar para o São Miguel só durante as turbulências, não é?
Adriana - Não, o ideal é que você vá conversando com ele, naturalmente, durante a viagem. Mas agora me lembrei de uma coisa que aconteceu, Márcio. Eu sou tão louca com esse negócio de avião, que uma vez eu fui me consultar com a mulher do tarô e ela me disse que eu não vou morrer nunca em queda de avião. Só que aí eu passei a achar que precisava viajar sempre com todo mundo, para não deixar o avião cair. Quando as minhas filhas viajavam, eu queria estar no avião delas, porque já sei que não vou morrer no ar, mas eu não sei sobre o destino delas. Então, um dia, duas das minhas meninas foram para Londres, fazer um intercâmbio... Na época, uma estava com 14 e a outra estava com 17 anos. E eu resolvi ir junto com elas, para segurar o avião. Eu marquei mesmo as passagens, para ir junto, realmente para isso. Só que elas iam viajar com um grupo do intercâmbio. E na hora, no aeroporto, houve uma confusão com o pessoal do grupo e elas acabaram indo em outro voo. Aí eu voei sem elas até Londres, chorando e rezando para que o meu avião caísse e não o delas. E a realidade é que depois dessa história com as meninas, aprendi mesmo que não sou que seguro o voo, é o São Miguel.
 
Leonardo - Ainda bem que você se livrou dessa responsabilidade, senão eu ia ter que remarcar a minha passagem, para ir contigo no mesmo voo até Recife.
 
Dos aviões para a televisão. Maria Eduarda, você está brilhando no seriado Tudo novo de novo, na Globo, com a Julia Lemmertz e o Marco Ricca nos papéis principais.  Esse seriado, que tem supervisão da Maria Adelaide Amaral, também fala sobre a importância de virar a página na vida afetiva e levanta a questão das novas organizações familiares.
Maria Eduarda - Sim, é verdade, tem uma relação entre o seriado e o livro. E eu estou gostando muito desse meu novo trabalho na televisão (Maria Eduarda já trabalhou muito em teatro e participou de várias novelas da Globo, entre elas, Paraíso tropical e Três irmãs). O título, Tudo novo de novo, é também da música de abertura do Paulinho Moska, que fala sobre fazer as mesmas coisas de um jeito diferente.  Uma coisa bem legal dessa minissérie é o olhar das crianças, as coisas vistas pelo ponto de vista infantil.
 
Na minissérie, você faz a irmã mais nova da Julia Lemmertz, e (pelo menos nos capítulos que eu vi) é uma pessoa que influencia muito a personagem da Julia...
Maria Eduarda - Sim, a irmã mais nova tem uma outra crença na vida. Ela quer passar por tudo na vida muito rápido, por medo de se aprofundar nos sentimentos e sofrer. Os relacionamentos dela são descartáveis.
 
Outra frase do livro: "Ainda bem que sonhar é grátis". Será que alguns sonhos têm preço?
Adriana - Os meus sonhos não têm preço, não. Eu tenho insônia. Gosto de jogar na mega-sena, principalmente quando está acumulada. Então, fico sonhando o que eu vou fazer quando ganhar o prêmio de três milhões. E passo a noite fazendo compras com o dinheiro da megassena. Eu compro um apartamento em Paris, dou outro apartamento para não sei quem... O João já me disse que é uma burrice jogar, porque eu não vou ganhar nunca, mas eu expliquei para ele que eu não joga para ganhar...
 
Você joga para sonhar?
Adriana - É isso mesmo, eu jogo para poder fazer essas compras durante a noite e sonhar com o que eu quiser, na minha insônia. Eu gosto muito da brincadeira do sonho...
 
Maria Eduarda - O perigo é quando a pessoa acredita o tempo todo que aquilo vai acontecer e passa a viver tudo em função desse sonho quase impossível... 
 
É quando o sonho paralisa a vida da pessoa...
Maria Eduarda - É, aí a pessoa acaba parando a vida dela por causa de um sonho e não vive. Mas claro que sonhar é essencial. Numa das suas peças, não me lembro qual agora, o Shakespeare diz que nós somos feitos da mesma matéria dos sonhos.
 
Leonardo - O Ariano Suassuna também já disse que a razão empurra todo mundo para ficar dentro de casa, e é o sonho que empurra a gente para fora.
 
Bem, agora o sonho está me empurrando de volta para o livro, para dentro de mais uma frase sua, Adriana: "A vida é um espetáculo". O que há de mais espetacular na vida?
Adriana - É espetacular pensar que a mesma Adriana já chorou, já arrancou os cabelos, já ficou muito feliz, já dançou, já ficou louca, já escreveu, já fez três filhas... Isso é espetacular, no sentido de virada mesmo, não no sentido espetaculoso. E é isso mesmo. A gente passa por várias fases na vida, da dor mais horrível à maior alegria do mundo, como num bom espetáculo.


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