sexta-feira 21 de fevereiro



29 DE JUNHO DE 2009 VOLTAR PARA LISTA DE ENTREVISTAS

Flávio Carneiro - Um Craque das Palavras

 

 “Acho que a literatura aproxima não só o autor dos leitores, aproxima também os leitores entre si”.
 
 
Márcio Vassallo
 
 
No aquecimento do seu novo livro, Passe de letra (publicado pela Rocco), você conta que sempre quis escrever sobre futebol, lembra que já havia escrito um conto e o roteiro de um curta-metragem, mas ressalta que a oportunidade de escrever de forma mais regular sobre o tema surgiu a partir de um convite do Rogério Pereira, editor do jornal Rascunho, de Curitiba. Qual o grande prazer de escrever sobre futebol num jornal literário tão precioso e bem feito?
Flávio Carneiro - O Rascunho é um grande jornal e já deveria ter recebido um prêmio por estar há quase 10 anos sendo editado, com mil dificuldades financeiras e ainda assim mantendo o alto nível de qualidade. Escritores como Luiz Ruffato, Adriana Lisboa, José Castello, Cláudia Lage e Raimundo Carreiro, entre outros, são colunistas fixos do jornal. E também fui, por dois anos. Conheci o Rogério Pereira, em São Paulo, num encontro do Instituto Itaú Cultural. Ele me convidou para escrever uma coluna sobre ficção brasileira na atualidade. Só que, numa conversa com o José Castello e o próprio Rogério, apareceu a ideia de se fazer uma coluna sobre futebol, em que escritores se revezassem sobre o tema. Aí o Rogério falou do problema de não ter escritores suficientes para bancar uma coluna por muito tempo e o assunto morreu ali. Naquela noite pensei: isso não vai morrer não, e no dia seguinte falei com o Rogério que eu mesmo assumiria a coluna. Ele me avisou: cara, tem que ter disciplina, tem que ter prazo para entrega, e tema e número de linhas etc. Quando mandei a primeira, sobre o Selefama, ele me respondeu com uma única palavra: sensacional. Aí senti de fato que estava em casa, que tinha descoberto uma parceria. E escrevi durante dois anos as crônicas que compõem o Passe de Letra.
 
E como você matou no peito a ideia de reunir essas crônicas num livro?
Flávio - Quando escrevi a primeira crônica, já pensava na ideia do livro. Tanto que fiz questão de não escrever nada muito “datado”, não comentar o jogo da semana ou algo assim. Meu plano era escrever crônicas que variassem entre a narrativa e o comentário, abordando futebol a partir de um olhar de escritor e não apenas de apaixonado pelo tema. Isso porque meu interesse era o de que as crônicas interessassem também ao leitor que não gosta de futebol.
 
E deu bem certo...
Flávio - Sim, acho que realmente deu certo porque vários leitores me escreveram dizendo exatamente isso: que não gostam de futebol, mas gostaram das crônicas. E recentemente recebi um e-mail que guardei a sete chaves. Foi enviado pelo escritor e crítico Miguel Sanches Neto. Ele não gosta mesmo de futebol – até escreveu uma crônica sobre isso – e no entanto gostou do livro e me enviou uma mensagem comovente, falando da sua alegria ao ler sobretudo certas crônicas em que falo da minha infância, em Goiânia, e do papel que o futebol desempenhou e desempenha na minha vida.
 
Você conhece alguém que adore futebol, mas que não goste de conversar sobre o assunto?
Flávio - Impossível. Pessoa assim não existe.
 
De onde vem a sua paixão pelo futebol? Você acha que toda paixão vem de algum lugar?
Flávio - Não sei direito de onde vem essa paixão. Paixão a gente nunca sabe de onde vem, claro.  Agora, tem uma coisa: minha mãe teve quatro irmãos e todos foram jogadores de futebol. Será que vem daí? Quatro tios que não apenas falavam de futebol, mas que realmente jogaram? Tentei falar disso na crônica Os irmãos da minha mãe. E o mais curioso é que eram: um goleiro, um zagueiro, um meio-campo e um centroavante. Quer dizer, toda a espinha dorsal de um time.
 
Nesse seu delicioso livro, você cita o escritor, filósofo e goleiro Albert Camus: “O conhecimento da alma humana passa por um campo de futebol.” Para você, o que o futebol tem de mais humano, mais encantador e mais apaixonante que os outros esportes?
Flávio - Essa é a grande pergunta. E para grandes perguntas nunca há uma única resposta. Então, me arrisco apenas a algumas toscas tentativas de responder. Por exemplo: futebol é uma caixinha de surpresas.  Literatura também não é isso? O futebol talvez seja o único esporte em que o pior – o muito pior - pode ganhar. O imprevisível, o imponderável, é isso que move o futebol (e que o aproxima da literatura). Quando você abre um bom romance, por exemplo, nunca sabe como é que vai terminar, não é? Com um jogo de futebol é a mesma coisa. Talvez venha sobretudo daí o seu encanto. Pensando bem, passo o livro todo respondendo a essa sua pergunta. As crônicas são, cada qual a seu modo, partes dessa longa (e inconclusa) resposta. Em especial, trato disso na crônica Literatura & Futebol.
 
Na orelha, ou melhor, na lateral esquerda do teu livro, Luis Fernando Verissimo escreve sobre a melhor maneira de falar sobre essa paixão. “Já fizeram bons poemas e tratados sociológicos profundos sobre o futebol, claro, nada contra, mas acho que a melhor maneira de escrever sobre ele é como faz o Flávio neste livro, misturando memória e reflexão, o puro gosto pela bola rolando e sua experiência como jogador, torcedor e observador – e nem por isso sendo menos literário”. Além de você, hoje em dia, quem são os grandes escritores brasileiros que costumam escrever sobre futebol? Gosto muito do Luis Fernando Verissimo, do Arthur Dapieve, do José Roberto Torero, que não são cronistas esportivos, mas gostam de escrever sobre futebol, de vez em quando. Quem mais? O Armando Nogueira ainda tem escrito?
Flávio - De fato, esses que você citou são muito bons. Gosto também do Fernando Calazans e do Renato Maurício Prado, cronistas de O Globo. Não sei se o Armando Nogueira continua escrevendo, mas sem dúvida é um grande cronista de futebol.
 
Bem lembrado, também leio sempre o Fernando Calazans e o Renato Maurício Prado. Ah, e também gosto muito do Marcos Caetano, do Jornal do Brasil. Bem, leituras à parte, costumo dizer que o meu filho, Gabriel, torce pelo Fluminense por bom gosto, por paixão e por educação. Como nasceu o seu amor pelo Botafogo? Por que o Vila Nova ou o Goiás, por exemplo, times de Goiás, tua terra natal, não te seduziram?
Flávio - Quando criança, eu torcia pelo Atlético Goianiense. Ia ao estádio, levava bandeira e tudo, era o time do meu bairro em Goiânia. Depois, por problemas financeiros, o time teve que vender o campo, a sede, e simplesmente acabou. Só recentemente, passados muitos anos, foi que voltou, e voltou com tudo, ganhando título estadual e, ano passado, o título de campeão da série C. Mas fiquei muito tempo sem torcer para o Atlético e agora não me considero mais um torcedor, apenas um simpatizante, digamos. Assim como também sempre tinha simpatia pelo Botafogo. Não sei exatamente quando comecei a torcer pelo Botafogo, devia ser criança ainda, e te confesso que não sei o motivo. Ninguém na minha família torcia para o Botafogo, então não sei. Quer dizer, de uma coisa eu sei: sempre gostei do escudo, e da ideia de o time ser chamado de time da estrela solitária. É provável que tenha sido por isso, por esse belo escudo, quase um poema sem palavras.
 
Por falar em Goiás, no livro você conta histórias emocionantes do tempo em que chegou a jogar no Serra Dourada, maior estádio do estado, e quase se profissionalizou. Você acha que, hoje em dia, conseguiria uma vaga na meia direita do Botafogo?
Flávio - Não é porque você tricolor que pode ficar me provocando assim, ô Márcio! O Botafogo não anda muito bem das pernas, mas vai melhorar, pode apostar nisso. E na minha época eu jogava de ponta-direita, não de meia. E hoje jogo de centroavante no meu time em Teresópolis, o glorioso Clube Atlético Duque de Caxias (mais conhecido pela sigla: CADUCA – nada a ver com a idade dos atletas, hein!).
 
Ok, entendi, na realidade, o CADUCA é um time de jogadores experientes. Mas agora que vamos mudar um pouco a prosa, dos masters para os iniciantes. Hoje em dia os meninos continuam sonhando em ser jogadores de futebol, mas, com raras exceções, não sonham mais em jogar no Botafogo, no Fluminense, no Grêmio, no Cruzeiro, ou no São Paulo. Converso com muitos garotos e o que eles me dizem é que sonham mesmo é em jogar no Milan, no Barcelona, ou no Manchester. No sonho deles, os grandes clubes do Brasil, na realidade, se tornaram apenas vitrines, apenas pontes para o sucesso no exterior. E se conversar com eles, verá que, no fundo, sonham mesmo é com o que o futebol poderá render: dinheiro, carrões, fama, prestígio, fotos nas revistas, mulheres lindas... A bola deixou de ser um fim, para se tornar um meio. O que você acha desse fenômeno, meu caro?
Flávio - O que você diz é verdade sim e essa mudança aconteceu de forma muito rápida. Para você ter uma ideia, quando tinha 18 anos recebi um convite para jogar no profissional do Guarani, de Campinas, que tinha sido campeão brasileiro dois anos antes (o grande nome do time era o Careca, o centroavante que depois jogou no São Paulo, na Itália, na seleção etc.) e estava em alta.
 
Rapaz, você recebeu esse convite, naquela época? Que beleza de sonho esse aí que você tem para contar. O Guarani daquele tempo realmente tinha um timaço, com o Zé Carlos, o Capitão, o Zenon, que batia faltas tão bem...
Flávio – Sim, exatamente, mas eu recusei de jogar lá, porque preferi me mudar paro o Rio e tentar a sorte como escritor. De todo modo, naquela época, início dos anos 80, não tinha essa loucura toda de o garoto querer ir logo para a Europa, um convite daqueles, para jogar num time grande do interior de São Paulo, já era realmente um grande sonho! Tanto que nos anos seguintes me arrependi profundamente por não ter aceitado.  Quer dizer, essa coisa toda em torno do jogador, esses empresários todos que detêm os direitos do jogador e que começam a investir no menino quando ele tem oito, dez anos, já pensando nos altos lucros futuros, isso tudo é assustador e é um fenômeno relativamente recente, talvez de uns dez ou 15 anos para cá. Não sei se essa crise econômica mundial vai frear um pouco isso, mas creio que a tendência é continuar, o que acho uma pena.
 
Pensamento seu: “Há mais afinidades entre o futebol e a literatura do que supõe a nossa vã filosofia (...). E há algo que liga as regras do futebol às regras da literatura. São ambas da mesma natureza, digamos assim. São feitas para permitir a entrada do imponderável (...). Um bom romance é aquele que você sabe como começa, mas não sabe como vai terminar. Se já sabe, nem vale a pena ler. Um bom romance é uma caixinha de surpresas. Uma partida de futebol é a mesma coisa, com a vantagem, do futebol, de que mesmo uma partida ruim é imprevisível, ao contrário de um romance”. Em que aspectos o imponderável mais move a sua vida, Flávio?
Flávio - Acho que move a vida de todo mundo, mesmo do sujeito mais metódico. Tento ser um cara organizado, até para poder dar conta dos inúmeros trabalhos, todos envolvendo literatura, mas em áreas diversas, como o ensino na universidade, o jornal, o ensaio, a ficção etc. Agora, sempre sei que algo pode sair do planejado. E isso nem sempre é ruim, o inesperado também pode ser bom. Aliás, foi nisso que eu e a Adriana Lisboa pensamos quando escrevemos o roteiro do longa-metragem Bodas de Papel, dirigido pelo André Sturm (que também ajudou a escrever o roteiro). O ponto de partida foi o conceito de “serendipidade”: o ato de, procurando determinada coisa, descobrir outra melhor. Além disso, ainda jogo futebol, aos sábados, aqui em Teresópolis. Futebol de campo mesmo, 11 contra 11, com juiz, bandeirinha e tal, num campo oficial, de grama verdadeira (não sintética). E aí você já sabe: o imponderável é quem manda. Ou seja, mesmo que minha vida fosse absolutamente monótona, previsível – o que felizmente não é –, mesmo assim o imponderável faria parte dela, nem que fosse apenas aos sábados.
 
Outro pensamento seu: “A literatura tem como única função abrir as portas do imaginário – do escritor e do leitor”. Quais são as chaves para abrir essas portas?
Flávio - São muitas. Depende unicamente da habilidade do escritor e do desejo do leitor. O que acho importante é que o escritor deve apostar na inteligência e na sensibilidade do seu leitor, não deve menosprezar o leitor e querer explicar tudo, dizer tudo. E sobretudo não deve querer ensinar nada. Escritor não é professor, sua função é outra, é escrever.
 
Por outro lado, quais são as chaves que costumam fechar a nossa imaginação?
Flávio - As chaves da prepotência. O escritor que quer passar “mensagem”, que quer ensinar o seu leitor, é um prepotente. Primeiro, porque julga saber mais do que o outro, o leitor. Depois, porque julga que o que ele, escritor, sabe é tão importante que merece ser posto em livro. Nesse caso, em última instância o livro continua sendo do escritor, mesmo quando está nas livrarias. Isso não está certo. O dono do livro é o leitor. Dono mesmo, de verdade. O leitor é quem dá sentido ao livro, é ele que deve ser o dono do livro. O escritor é dono da história apenas enquanto a está escrevendo. Publicar é tornar público, é dar ao mundo, largar no mundo o que se escreveu. Quem quer usar a literatura para “fazer a cabeça” do leitor não quer largar o livro que escreveu, quer continuar sendo dono dele mesmo depois de publicado. Noutras palavras: não merece ser lido.
 
Você de novo, no seu Passe de letra: “A língua nos é dada para que nos comuniquemos, para que tornemos possível o diálogo com o outro, mas isso em troca de tudo o que tínhamos antes. Agora, se temos fome, precisamos dizer: estou com fome, e não apontar para o seio da mãe, ou chorar, ou qualquer outra forma de dizer isso. Pois a literatura nos traz de volta este mundo primitivo. A palavra poética estabelece o caos, instaura o reino dos vários significados, e é este caos que nos salva, porque nos liberta da necessária opressão imposta pela língua e nos remete de volta à infância, ao tempo da imaginação e da eterna descoberta”. Em que sentido o tempo da imaginação e da eterna descoberta fazem a diferença na vida de uma pessoa?
Flávio - A imaginação é tudo na vida de uma pessoa. Sem imaginação você não vai nem até a esquina da sua casa. Uma vez pensei nisso, que a famosa frase “Penso, logo existo” deveria ser substituída por “Imagino, logo existo.” Quer dizer, o pensamento também pode ser uma forma de imaginação, claro. A matemática parece a coisa mais exata do mundo, pensamento puro, dirão alguns, mas na verdade é pura abstração. A ideia de número é espantosa, para mim. E de números negativos então? Isso é imaginação ou não é? O Pedro, narrador de A distância das coisas, fica intrigado com isso: qual o maior número que existe? Se você pode sempre acrescentar mais um, qual o último número, o maior, o que fecha a sequência? Não é caso para usar a imaginação? O Antonio Candido tem um belo ensaio, chamado “O direito à literatura”, em que ele fala disso, do direito que todos temos de desfrutar desse tipo de prazer, o de imaginar pelas palavras do outro (não é bem isso que ele diz, mas é algo nesse sentido, o de que temos direito ao contato com a literatura). Quando algum regime político autoritário impõe a censura, o que está fazendo é nos tirar o direito de imaginar por conta própria, de criar nossos próprios mundos ficcionais, nossas fantasias. Por isso a literatura é importante, porque nos convida a imaginar.
 
Também no seu novo livro, você nos convida a imaginar: “O que mais me atrai na literatura é ser parte de uma seita secreta – a das artes em geral – que se move nas sombras do dia-a-dia, entre uma fila de banco, uma cadeira de dentista, um dia estafante no escritório. E se move buscando novos adeptos, capazes de sair do mundo real e voltar novamente a ele, quando necessário, só que agora diferentes de quando partiram, menos bárbaros, sem dúvida”. A literatura nos torna menos bárbaros... Para você, acima de tudo, o que o futebol nos torna?
Flávio - O futebol nos torna mais vivos, mais humanos. Ele nos faz entender que nem sempre podemos ganhar, que somos limitados. Mas também que podemos ser heróis, nem que seja por pouco tempo. O futebol não é apenas um jogo, é todo um complexo de coisas que se juntam para nos dar a dimensão do humano, de nossa fragilidade, de nossos sonhos, de nossos fantasmas, dos monstros que carregamos, de nossas alegrias.
 
Numa entrevista ao jornal Rascunho, você cita Kafka e lembra que o autor dizia que a única coisa que lhe interessava era a literatura. “Não sou dessas pessoas que acreditam em ‘únicas coisas’. Gosto de Kafka, mas não acho que a literatura seja a melhor coisa já inventada. Há coisas mais interessantes. O futebol, por exemplo”. Em que aspectos o futebol te seduz mais que a literatura?
Flávio - Essa na verdade foi uma frase, digamos, de efeito, dita numa entrevista com o sentido de dessacralizar a ideia de literatura como uma arte de eleitos, de pessoas inspiradas, quase deuses. Mas não é bem isso o que penso, acho que futebol e literatura se equivalem, um não é melhor que o outro. São coisas diferentes, embora com muitos pontos em comum. A literatura talvez seja mais previsível que o futebol. Basta pensar, por exemplo, que um romance ruim você já sabe como vai terminar. Um jogo de futebol não. Mesmo ruim, você pode se surpreender com ele.
 
Também numa entrevista, você já citou o escritor Roland Barthes, que diz: “O texto que o senhor escreve tem que me dar a prova de que me deseja”. Então, você completa o pensamento do Barthes: “Se o leitor percebe esse desejo e corresponde a ele, o pacto está selado para sempre”. O que um texto literário precisa para provocar desejo em você?
Flávio - Precisa ser inventivo, seja qual for o estilo. Precisa ser surpreendente. E precisa deixar espaço para mim, para que eu também possa escrever o livro já escrito. Não pode se apresentar para mim já pronto, acabado, precisa ter espaços que eu possa ocupar.
 
Você é professor de literatura na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e costuma ministrar muitos cursos teóricos e práticos na área. O que você acha que é impossível ensinar aos seus alunos?
Flávio - Acho impossível um professor ensinar algo que não sabe. E não digo de conteúdo, mas de vida mesmo, de personalidade, de experiência pessoal. Por exemplo: só pode ensinar literatura quem é apaixonado por literatura. Se não for, se literatura for para ele apenas um meio de ganhar seu salário no final do mês, duvido que consiga ensinar literatura. Pode ensinar datas, nomes, estilos, essas coisas, mas o prazer mesmo de ler um livro de poemas, uma coletânea de contos, um romance, isso só vai transmitir o professor que de fato viveu e vive cotidianamente esse prazer.
 
E o que você mais costuma aprender em sala de aula?
Flávio - Aprendo muita coisa. E aprendo sempre. Às vezes é um ponto-de-vista diferente, uma leitura que o aluno faz e que não tinha ocorrido antes a você. Mas é principalmente um outro tipo de aprendizagem, a do comportamento humano, a das surpresas com o indivíduo mesmo, o aluno que está ali na sua frente, que tem uma história de vida que você desconhece e que às vezes se revela um pouco num sorriso, numa cara feia, num modo de sentar na cadeira ou de olhar para você ou de olhar pela janela da sala alguma coisa lá fora, ou de dizer algo que não tem nada a ver com a aula mas tem muito a ver com ele mesmo. São essas coisas que aprendo sempre.
 
Sobre o seu livro A distância das coisas, Prêmio Barco a Vapor de Literatura Infantil de 2007, publicado pela editora SM (e premiado pela FNLIJ com o selo Altamente Recomendável para Jovem), o escritor e crítico Gustavo Bernardo escreveu: “(...) o personagem de Flávio pensa menos geográfica do que filosoficamente. O romance é todo sobre a dúvida e a relatividade, sobre a vida e a morte, sobre ser ou não ser, inclusive com surpresas e inversões no enredo (...). Trata-se de uma obra-prima”. O que, de fato, nos distancia das coisas, das pessoas, dos sentimentos?
Flávio - Coisas, pessoas e sentimentos são realidades diferentes entre si. Às vezes o fato de você se aproximar demais das coisas te distancia das pessoas, por exemplo. E sentimentos você sempre tem, estão sempre perto de você. O que acontece é que os sentimentos podem ser mesquinhos, egoístas. Então os próprios sentimentos podem te distanciar das pessoas, podem reduzir você ao seu próprio e único centro. Acho que a literatura aproxima as pessoas. O escritor Jean Paul disse uma vez que livros são cartas que escrevemos a amigos distantes, só que mais longas. Acho isso também, que um livro que você escreve é uma carta endereçada a quem você não conhece, não sabe onde mora, quantos anos tem, o que pensa da vida e que de algum modo está próximo de você no momento em que você está escrevendo o seu livro. E vai de algum modo se aproximar de você quando ler seu livro. Acho que a literatura aproxima não só o autor dos leitores, aproxima também os leitores entre si. Talvez uma prova disso seja o que acontece quando você lê um livro e sente uma vontade incontrolável de falar dele para alguém, de dá-lo de presente a alguém. O que você está sentindo é um desejo de ficar mais perto das pessoas, de dividir com elas uma descoberta, um prazer, o prazer da leitura.


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