terça-feira 17 de setembro



04 DE MARÇO DE 2003 VOLTAR PARA LISTA DE ENTREVISTAS

Luis Fernando Verissimo - Profundidade na Superfície

 
Márcio Vassallo
 
 
Um pensamento seu: "A atividade de cronista me realiza completamente e acredito que é perfeitamente possível atingir a profundidade ficando na superfície.” O que há de mais profundo nas superfícies? 
Luis Fernando Verissimo - A gente pode escrever sobre todo tipo de coisa, de uma maneira leve. Para escrever sobre um assunto sério, ou pretensamente sério, o autor não precisa escrever de forma empolada, formal.
 
Seu próximo romance vai fazer parte da coleção Cinco dedos de prosa, da editora Objetiva. Nessa coleção, cinco autores convidados escrevem uma história inspirada em cada um dos dedos da nossa mão. E você ficou com o polegar. Afinal, o que o polegar tem de mais atraente? 
Luis Fernando - O livro vai se chamar O Opositor. Mas até agora só tenho o título. Acho que o movimento de juntar o dedão com o dedo indicador foi o grande passo na evolução da humanidade. Afinal, foi a partir desse movimento que o homem conseguiu pegar a larva, para comer com mais precisão, e também estrangular o próximo.
 
Você já escreveu uma vez: “Examine suas mãos. Coisas estranhas, não são? Nos pertencem e ao mesmo tempo não nos pertencem. Parecem ter vida e opiniões próprias.” Em que momentos você mais discorda das suas mãos? 
Luis Fernando - Tem gestos que agem por conta própria, mesmo que você não concorde com eles e que não tenha a intenção de fazê-los. E como eu sou uma pessoa que tem certa dificuldade de expressão verbal, que tem uma certa timidez, muitas vezes acho que consigo falar melhor com as mãos, com os gestos. Só que nunca sabemos ao certo que gestos vamos fazer. O gesto é uma coisa que a gente não controla muito. 
 
O Opositor é um livro de encomenda, feito O Clube dos Anjos (Objetiva), da coleção Plenos Pecados, e Borges e os Orangotangos Eternos (Companhia das Letras), da série Literatura ou Morte. Você costuma dizer que quando o trabalho é encomendado, meio caminho já está andado, e que a musa inspiradora do cronista é o prazo de entrega. A urgência de voar faz você andar? 
Luis Fernando - O prazo é um desafio. Mas, na realidade, o que provoca a criação do livro não tem tanta importância assim. Isso não é o mais importante. O fundamental é que o livro saia bom. E acho que o livro encomendado é uma forma de desafio. A pessoa inventa o tema e você topa esse desafio de criar, para chegar a um ponto pré-estabelecido. E uma encomenda não significa que o livro tenha que ser a favor ou contra alguma coisa. É só uma provocação para o autor.
 
Outro pensamento seu: “Só começo a escrever quando estou na frente do computador. Já tentei andar com um caderninho para anotar as idéias, mas acabava esquecendo o caderninho e as idéias.” As idéias é que não se esquecem de você? 
Luis Fernando - Olha, acho que estou sempre com idéias na cabeça, estou sempre pensando em coisas para escrever, mas na maioria das vezes de forma inconsciente. Então, é quando sento em frente ao computador que organizo melhor o meu pensamento. 
 
Em uma entrevista, na TVE, o jornalista Roberto D`Ávilla lhe perguntou com que frase você conquistou a Lúcia, sua mulher. E você respondeu: “Acho que foi com um silêncio eloqüente.” Qual a poesia do silêncio? 
Luis Fernando - Quando não dizemos nada, ampliamos no outro as possibilidades de interpretação. O silêncio permite mais interpretações que a palavra. Acho que o silêncio é bem mais amplo, é bem mais rico que a palavra. Na realidade, a palavra tem mais limites do que o silêncio.
 
Você também costuma dizer que nunca está preparado para perguntas. Por quê?
Luis Fernando - Nunca dominei a arte de pensar e falar ao mesmo tempo...
 
E você nem precisou pensar para responder? 
Luis Fernando - Exatamente, exatamente. 
 
Numa entrevista à Clarice Lispector, o poeta Pablo Neruda disse que uma mulher realmente bela é feita de muitas mulheres. Você concorda? 
Luis Fernando - Essa é uma frase de efeito, é um pensamento poético bonito, mas acho que não reflete a realidade. O que chama a atenção numa mulher, o que faz um homem amar uma mulher, é o que ela mais tem de diferente, mais pessoal, mais singular. 
 
O que mais torna uma mulher encantadora? 
Luis Fernando - Primeiro é a beleza externa. Depois vem o resto, que pode combinar, ou não, com você. E aí não tem nada a ver com a aparência. Acho que o encanto vem dessa combinação.
 
Quando meninos, adoramos determinados pratos e achamos outros esquisitos. Depois, com o tempo, muitas vezes o que a gente achava esquisito passa a ser bem atraente. Da mesma forma, será que a maturidade aprimora nos homens o gosto pelas mulheres? 
Luis Fernando - É um bom paralelo, é um bom paralelo... Só que tem o outro lado dessa história. Também tem coisas que nunca deixamos de gostar. E com o tempo, quando ficamos mais velhos, não podemos comer mais.
 
Aliás, no livro O Clube dos Anjos, você fala sobre o que o tempo faz conosco, com o nosso corpo, com as nossas intenções. E o que a gente faz com o tempo? 
Luis Fernando - O tempo é o nosso inimigo mais terrível. Não temos nenhum recurso para combatê-lo. Ninguém enxerga o tempo. Ele age de uma maneira subversiva, e nos invade sem que possamos repelir essa invasão. 
 
Ninguém sabe o momento em que ele chega? 
Luis Fernando - Não, ninguém sabe. Muitas vezes ele nos ataca de surpresa. Por isso, não há o que fazer com o tempo. Não temos defesa contra ele.
 
Aproveitar o tempo seria uma defesa? 
Luis Fernando - É uma alternativa. Precisamos aproveitar o nosso tempo do melhor modo possível. 
 
Também em O Clube dos Anjos, o narrador da história diz: “Queríamos o mundo, mas acabamos como fracassados municipais.” Será que um fracassado municipal pode ser mais feliz que um bem-sucedido internacional? 
Luis Fernando - Acho que sim, depende dos parâmetros de cada um. Tem gente que leva uma vida considerada medíocre, mas que é feliz. Aliás, muitas vezes essa pessoa nem tem uma clara referência do que seria uma vida bem-sucedida. E é feliz do jeito dela.
 
A felicidade não depende dos nossos sucessos, são os sucessos que dependem da nossa felicidade, ou nada tem a ver com nada? 
Luis Fernando - Para mim, faz sucesso de verdade quem consegue provocar o amor nos outros. Faz sucesso mesmo quem é uma pessoa amada, uma pessoa que se ama, uma pessoa que é capaz de amar, uma pessoa cheia de amor por tudo quanto é lado. Mas mesmo quem é feliz e quem faz sucesso tem as suas próprias inquietações, as suas próprias angústias, as suas próprias infelicidades. O ideal é a pessoa estar confortável consigo mesma, sem grandes perguntas que provoquem angústias. 
 
O seu livro Comédias para se Ler na Escola foi organizado pela escritora Ana Maria Machado. E a Ana Maria diz assim: “Depois de ler este livro, duvido que algum jovem ainda seja capaz de dizer, sinceramente, que não curte ler.” Quais os caminhos para estimular nas crianças o prazer da leitura?
Luis Fernando - Essa é uma grande luta. Acho que o primeiro passo é fazer com que a criança descubra o livro. E que ela faça essa descoberta com uma boa orientação. A criança precisa ser provocada para descobrir o prazer de ler. Esse trabalho começa em casa e passa muito pela escola. E é um trabalho que tem melhorado muito nas escolas brasileiras. Tenho visto ótimos trabalhos com os meus textos nas escolas que visito. 
 
Palavras de sua ex-professora Olga Reverbel sobre você: “Às vezes eu me perguntava: será que é de escrever que ele gosta, ou é do tempo que o deixo só, para fazer a sua redação. Ou é da merenda? Pois nessas horas sempre havia um pedaço de pão ou bolo perto do aluno misterioso.” O que foi mais marcante para você, na época da escola? 
Luis Fernando - Olha, eu era péssimo aluno. Tinha horror à escola. Olga era uma antiga amiga da minha família, me conheceu quando eu tinha quatro anos de idade, e foi minha professora particular. Então, quando se aproximavam os exames finais, a Olga sempre me ajudava. 
 
Você diz que foi um péssimo aluno. Em que sentido principalmente?
Luis Fernando - De fato eu tinha horror à escola e era péssimo em muitas matérias: Matemática, Português, Gramática... Gostava muito de História, de Desenho. Mas, acima de tudo, ir à escola era realmente horrível para mim. Encontrar os outros na escola era uma experiência muito difícil. Eu era muito calado, muito quieto, um aluno muito bem-comportado, como dizem. 
 
Nem todo aluno bem-comportado é feliz na escola?
Luis Fernando - Não, eu acho que não. Uma coisa não tem nada a ver com outra. 
 
Vamos sair um pouco da escola. Em Poesia Numa Hora Dessas (Objetiva), você escreveu: “Uma poesia não é feita com palavras. A poesia já existe. A gente só põe as palavras em volta, feito as bandagens do homem invisível, lembra?” Os verdadeiros poetas são invisíveis para a maioria das pessoas?
Luis Fernando- Acho que sim. Muitas vezes a poesia sai das pessoas e dos lugares mais inesperados. E nem todo mundo enxerga isso. Tem muita gente com sensibilidade poética, mas que ainda não botou as palavras no papel. Nem todo poeta é um escritor. O poeta é alguém que tem uma maneira bem especial de viver e de ver o mundo. 
 
Uma frase do seu pai, Erico Verissimo: “O escritor precisa carregar as suas próprias lâmpadas, para fazer luz sobre a realidade do mundo.” Ao longo do tempo, o escritor também precisa trocar as suas próprias lâmpadas? 
Luis Fernando - A função do escritor não é oferecer soluções prontas para o leitor, mas sim projetar luzes nos lugares certos, da maneira certa, e mostrar coisas que as pessoas não vêem. 
 
O escritor também projeta sombras?
Luis Fernando - Também, também... Ele conhece as nossas sombras. Essa é a função do intelectual: entrar nas questões humanas. Bem, se é que o intelectual tem alguma função. Outro dia estava me lembrando, de certa forma, das funções da intelectualidade na História. Napoleão, por exemplo, tinha pretensões literárias. Ele queria escrever um grande romance. Mas como não conseguiu, resolveu conquistar o mundo. 
 
Da mesma forma que Hitler queria ser pintor, mas como não conseguiu...
Luis Fernando - Sim, já imaginou se Napoleão e Hitler tivessem conseguido ser o que queriam? 
 
Será que o Bush queria ser alguma coisa e não conseguiu? 
Luis Fernando - Quem sabe, quem sabe? É possível... O Napoleão achava que a literatura lhe daria ainda mais poder. Mas acho que essa idéia do poder da literatura se perdeu ao longo dos séculos. Os escritores tinham pretensões de mudar o mundo. Mas eles não mudaram a natureza humana. Talvez a literatura tenha se desencantado com o mundo. 
 
Qual é a serventia da literatura?
Luis Fernando - Acho que é aquela história que estávamos conversando há pouco. A literatura serve para clarear os nossos breus. 
 
Clarões e breus à parte, você toca sax numa banda de jazz. E o jazz é uma forma de criação coletiva, diferente da literatura. Em que aspectos tocar mais mexe com você? 
Luis Fernando - Sempre gostei muito de música, desde garoto. A expressão no jazz realmente é diferente da criação literária. Mas, ao mesmo tempo, tocar tem uma ligação com a crônica. Na crônica, geralmente a gente expõe um tema e depois faz variações e improvisos sobre esse tema. No final, o autor pode voltar ao tema do início, e por aí vai, sempre num tom muito pessoal, muito intimista. 
 
Para você a crônica é um acústico? 
Luis Fernando - A crônica é um solo de jazz. 
 
Você de novo: “Imagino que as pessoas que lêem o que eu escrevo, e que não me conhecem, devem ter uma idéia errado do que sou. Ou será que a idéia delas é a certa e os que me conhecem estão errados.” É possível que todos estejam certos?
Luis Fernando - Seria o ideal. Mas, na realidade, tudo o que a gente escreve, tudo o que a gente fala, é sempre uma simulação. Por mais que as pessoas imaginem um monte de coisas, o que vale, no final, é o que fazemos, o que deixamos de fazer, o que somos para nós mesmos e para os outros.


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