domingo 19 de maio



19 DE AGOSTO DE 2009 VOLTAR PARA LISTA DE ENTREVISTAS

Carlos Domingos - Oportunidade Indisfarçável para Leitores Sensíveis

Carlos Domingos: “O fracasso nos convida a pensar diferente, nos permite corrigir a rota, começar de novo”.

 
 
Márcio Vassallo
 
 
Em Oportunidades disfarçadas – histórias reais de empresas que transformaram problemas em grandes oportunidades (lançado pela editora Sextante), a partir de textos publicados originalmente em sua coluna no jornal Valor Econômico, você comenta centenas de casos envolvendo marcas poderosas e avalia as decisões de alguns dos mais respeitados empreendedores do mundo. Qual será a grande oportunidade que esse livro trouxe para você, Domingos?
Carlos Domingos- Foi a possibilidade de me comunicar com as pessoas e dividir meu conhecimento e minhas ideias com elas. Na verdade, vejo este livro como uma espécie de missão: eu queria mostrar às pessoas que passam por dificuldades que elas não estão sozinhas, que alguns dos profissionais mais talentosos do mundo viveram e vivem problemas semelhantes; que as pessoas nunca fracassam em nada, simplesmente elas desistem. E que é possível dar a volta por cima se o sujeito souber lidar com a situação. 
 
 
No seu livro, você cita Albert Einstein: “Em momentos de dificuldades, a imaginação é mais importante do que o conhecimento”. Mas, ainda hoje, muita gente despreza a imaginação, como se ela fosse algo menor. Para você, de onde vem esse desprezo das pessoas pela imaginação?
Domingos - Vem de duas coisas: a primeira é a predileção que as pessoas têm em seguir fórmulas e regras pré-estabelecidas. A segunda vem da angústia do ser humano em pensar com a própria cabeça, trilhar novos caminhos, arriscar, pensar diferente. Imaginar, criar, é caminhar no escuro. Isso é um pouco angustiante. Então, as pessoas preferem a segurança de seguir um caminho já conhecido. 
 
Mais uma vez, você cita Einstein: “Não existe maior sinal de insanidade do que fazer as coisas do mesmo jeito e esperar que os resultados sejam diferentes”. Por outro lado, qual é o maior sinal de lucidez de um empreendedor?
Domingos - Sem dúvida nenhuma, é a capacidade de se adaptar. Existe uma frase famosa que diz o seguinte: “O pessimista se queixa do vento. O otimista espera que ele mude. O realista ajusta as velas”.
 
De fato, nada como uma mente realista e imaginativa para reparar numa oportunidade bem preciosa no cotidiano. Mas, ao longo dos anos, vamos deixando de imaginar, como se tivéssemos sempre coisas mais urgentes para fazer, você concorda?
Domingos - Sim. Imaginação requer tempo livre. E hoje em dia as pessoas andam tão sobrecarregadas, não apenas com seus afazeres domésticos e do trabalho, mas também com a demanda virtual dos novos aparelhos eletrônicos, ninguém tem mais esse tempo livre para imaginar.
 
Toda criança nasce imaginativa, mas na maioria das vezes, em casa e na escola, vai sendo tolhida dessa sua capacidade. Na sua opinião, em que momentos da vida geralmente começamos a perder a imaginação?
Domingos- Tenho observado alguns amigos que criam os filhos com excesso de atividades, línguas, natação, artes marciais, música… Ora, imaginação requer que a criança tenha tempo para pegar uma embalagem de talco e imaginar que aquilo é um foguete. Acontece que os pais não deixam mais espaço para isso. Na minha opinião, é isso que está matando a criatividade.
 
Você cita o guru da administração Peter Drucker: “A criatividade não anda escassa. O que acontece é que a maioria das organizações se esforça para acabar com ela”. Quais os pecados capitais contra a imaginação numa empresa?
Domingos - Rigidez, autoritarismo, indisposição dos chefes de aceitar o novo, seja na forma de sugestões e pedidos da equipe interna, seja na forma de reclamações dos clientes. Essa miopia dos líderes frustra e intimida as mentes imaginativas das corporações.
 
O que a imaginação tem de mais poderosa para um empresário, um vendedor, um executivo?
Domingos - Só a imaginação pode levar a lugares novos, nunca antes alcançados por outros executivos, apontar novos nichos de mercado. É onde estão as verdadeiras oportunidades. Existe uma frase conhecida que diz o seguinte: “Evite andar por caminhos conhecidos. Eles só te levam aonde os outros já foram”.
 
Por falta de criatividade, também em geral, as pessoas passam a pensar, sentir, agir e reagir sem identidade, sem conseguir fazer as suas próprias escolhas, sem ousar, sem correr riscos. Em seu livro, você fala sobre a importância de superarmos o medo de errar e de fracassar. Como evitar que esse sentimento paralise a vida da gente?
Domingos - Bem, no caso das empresas isso deve partir dos dirigentes. Se forem implacáveis em punir um erro ou deslize da equipe, terá uma equipe medrosa, com muito receio de arriscar. Eu não estou falando em perdoar ou aceitar os erros simplesmente, mas sim da disposição de aprender com eles. Nesse sentido, o erro é um treinamento e ninguém merece bronca por estar aprendendo.  
 
Você é empresário, publicitário, palestrante, e também é autor do livro Criação sem pistolão e fundador da agência age.,que hoje integra o sexto maior grupo de comunicação do mundo. O que mais te move todos os dias e qual a importância das surpresas na tua vida?
O que me empolga hoje é o novo, são as ideias não-tradicionais. Gosto de me ver como um eterno aprendiz.Mais um aprendizado seu: “Quem sofre é tido como indesejado. Quem fracassa é tido como incompetente, um fraco (...). O fato é que começamos a não admitir o erro, a ter vergonha do fracasso, a disfarçar o sofrimento. Vivemos a ditadura da felicidade. É preciso estar feliz sempre, aparentar constante sucesso, exibir uma alegria insustentável”. De onde você acha que vem essa ditadura da felicidade?
Domingos - Vou citar um trecho do livro: “Talvez quando deixamos que a mídia, a imprensa e a publicidade nos vendessem padrões de sucesso, beleza e felicidade inatingíveis. Talvez quando aprendemos que a produtividade e a eficiência são os valores mais importantes que existem. Talvez ao construirmos uma sociedade tão imediatista e superficial que não tem tempo para perder com problemas e indagações. Talvez com o avanço da tecnologia, que nos pressionou a fazer tudo mais rápido e a acertar sempre, usando o parâmetro da máquina. Talvez com a globalização, que compara o desempenho de pessoas, empresas e países de diferentes pontos do planeta”.
 
Você falou agora sobre o medo de errar e também aborda esse tema no livro: “O medo de errar está tirando das pessoas a capacidade de ousar. Da próxima vez que sua empresa protagonizar um fracasso, faça diferente. Pense que sua equipe tem uma oportunidade de ouro nas mãos para aprender, repensar modelos antigos, colocar certezas em dúvida, dar a volta por cima. Não raro, o fracasso é melhor professor que o sucesso”. O que o fracasso te ensina que o sucesso não é capaz de ensinar?
Domingos - O fracasso nos convida a pensar diferente, nos permite corrigir a rota, começar de novo. Crescemos e aprendemos de verdade nas adversidades. O ser humano se acomoda quando as coisas vão bem.  Se você souber aprender com o fracasso, encontrará mais facilmente o caminho que te levará ao sucesso.
 
Em seu novo livro, entre outras questões, você comenta trajetórias de pessoas que transformaram a demissão inesperada de um emprego numa oportunidade preciosa de desenvolver um caminho brilhante, entre elas, Walt Disney, Michael Bloomberg, Larry King e Joanne, uma secretária que foi flagrada pelo patrão, várias vezes, interrompendo suas tarefas na empresa para escrever histórias. Depois de ser advertida seguidamente pelo chefe, ela foi demitida. Como você conta, esse golpe agravou uma situação que já ia de mal a pior. Joanne tinha acabado de se separar, tinha uma filha pequena para cuidar e foi diagnosticada como portadora de depressão crônica. Havia pensado até em se suicidar. Então, decidiu colocar todas as suas frustrações, todos os seus medos e seus estresses nas histórias que escrevia. E conseguiu lançar o seu primeiro livro: Harry Potter e a pedra filosofal. “Atualmente, a ex-secretária Joanne Kathleen Rowling, ou simplesmente J.K. Rowling, como ficou conhecida, é a mulher mais rica do Reino Unido e a escritora mais bem-sucedida do mundo”. Quais os passos essenciais para transformar uma má notícia num passo para belas conquistas?
Domingos - O primeiro passo é a disposição de vencer o ego e ter coragem de encarar os próprios erros e fraquezas. No geral, não é isso que as pessoas fazem. O sujeito demitido logo põe a culpa de sua demissão no chefe, na empresa, nos colegas de trabalho, na crise e dessa forma ele não encara realmente a sua deficiência. Por tanto, jamais poderá vencê-la.
 
Você comenta o livro A revolução do Hamster: como gerenciar os seus e-mails antes que eles gerenciem você, do consultor americano Mike Song e, neste contexto, faz uma constatação que também me perturba muito. “Uma grande barreira à pessoa ficar ligada no que acontece à sua volta são os novos equipamentos eletrônicos. Nas reuniões de negócios, é cada vez mais difícil obter a atenção total dos participantes. Alguns checam e-mails a cada minuto, outros atendem seus celulares ou respondem mensagens, colaborando para a distração geral. Resultado: as reuniões perderam objetividade, produtividade e, por que não dizer, criatividade. Somente com atenção plena você conseguirá enxergar algum detalhe revelador”. Neste momento, me lembro de palestrantes que usam data show em suas apresentações. Mas, na realidade, é o data show que usa essas pessoas, quando elas simplesmente estão lendo tudo o que a tela já está mostrando para a plateia. Então, em vez de usar a tecnologia a seu serviço, a pessoa fica a serviço da tecnologia e passa a ser uma mera legenda no palco. A que você atribui essa desordem?
Domingos - Excelente a sua constatação. Acredito que as pessoas, a partir dos anos 80, ficaram bastante deslumbradas com a tecnologia. Ora, a tecnologia é só forma, não conteúdo. No momento em que descuida do conteúdo, você terá uma apresentação bonitinha, mas ordinária.
 
Num trecho do seu livro, você diz: “Muita coisa que parece inovação, na verdade, é uma adaptação a um novo cenário. A criatividade vem da observação do que interessa ao cliente”. E de onde vem a observação? De que forma você exercita a sua capacidade de observar?
Domingos - Estando disposto a ouvir as pessoas, suas angústias e reclamações. E também reservando um tempo para tomar um café e observar a multidão na rua. Muitos dos insights que cito no livro vieram em momentos assim.
 
Em mais um trecho, você escreve: “Como as pessoas, as empresas têm DNA: é a vocação, é aquilo que fez a empresa surgir, são os valores e características que estão gravados nos corações e mentes dos fundadores e funcionários e até impregnados nas paredes dos escritórios e das fábricas. Também como algumas pessoas, há empresas que esquecem, desprezam e até se rebelam contra seu DNA e tentam ser outra coisa. Em ambos os casos, o resultado costuma deixar muito a desejar”.  O que costuma tirar a autenticidade de uma pessoa e de uma empresa?
Domingos - Três coisas. Primeira: líderes que assumem e querem dar a sua cara para a empresa, muitas vezes diferente do DNA histórico dela. Segunda: a tentação em seguir os concorrentes bem-sucedidos. Terceira: a aflição de encontrar a saída mais fácil numa situação difícil.
 
Segundo você, este livro mostra claramente que são a crise, a dificuldade e o sofrimento que nos impulsionam. “Em contrapartida, sabemos que, em momentos de bonança e lucros crescentes, é comum os profissionais se acomodarem. Como fazer para continuar avançando quando tudo vai bem? É possível tirar a equipe da zona de conforto em épocas de fartura?” Quais os principais mandamentos para uma pessoa não estagnar numa zona de conforto profissional?
Domingos -  É o exercício diário de combater o ego, cultivar a humildade e evitar a arrogância de que sabemos tudo. Meu livro mostra que, quando a gente aprende a jogar de acordo com as regras, as regras mudam. Esta consciência de que tudo está em constante mudança, nos estimula a continuar aprendendo a fazer as coisas de um jeito diferente.
 
Bem, é comum vermos vários diretores, gerentes e presidentes falarem para as suas equipes sobre importância de sair da zona de conforto, na intenção de motivá-las ou de parecerem atualizados sobre temas de liderança, mas eles mesmos permanecem nessa zona. Será que ficar falando sobre zona de conforto, sem realmente sair dela, no fundo também é ficar numa zona de conforto?
Domingos - Novamente, excelente constatação. Concordo plenamente. O que mais ouvimos é empresário falando de flexibilidade, de tirar a equipe da zona de conforto. Isso é fácil de dizer, mas não de fazer. Significa você colocar em dúvida diariamente seus conhecimentos, seus dogmas, suas crenças, suas regras. É caminhar sobre a insegurança. Isso é muito angustiante. É preciso disposição verdadeira, maturidade e segurança para fazer isso.
 
Entre outros prêmios, você já conquistou o Profissionais do Ano, da Rede Globo; o Grand Prix, do Prêmio Abril de Publicidade; Melhor Anúncio do Mundo, pelo Advertising Age; além de 12 Leões no Festival de Cannes. Afinal, o que é motivação, para você?
Domingos - Motivação para mim é ser melhor hoje do que fui ontem. É saber que o desafio mais importante é o que está na minha mesa agora.
 
Um convite seu para os leitores de Oportunidades disfarçadas: “Observe as pessoas nas ruas e veja como praticamente ninguém está prestando atenção no que acontece ao redor. Todos estão ocupados demais com seus afazeres, preocupados com o futuro ou remoendo o passado”. Sobre a importância de trabalhar com paixão, você diz que quem ama se dedica mais, trabalha mais duro, fica ligado o tempo to do e ressalta que assim é mais fácil identificar oportunidades disfarçadas. Você acha que para fazer um trabalho com paixão é fundamental ter vocação para as suas respectivas atividades, ou o que é imprescindível mesmo é cultivar uma espécie de vocação para a paixão em geral?
Domingos – Eu não acredito em vocação. Com exceção de meninos que já tocam piano com cinco anos, acredito que tudo possa ser aprendido. Basta interesse, dedicação, tempo e, claro, inteligência e capacidade. Agora, paixão é muito difícil de ser aprendida. Ou a pessoa tem ou não tem. Eu, graças a Deus, tenho.
 
Visite o site do livro www.oportunidadesdisfarcadas.com.br


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