quinta-feira 13 de dezembro



15 DE SETEMBRO DE 2010 VOLTAR PARA LISTA DE ENTREVISTAS

João Anzanello Carrascoza - Entre belezas doídas, reparos profundos e assombros perturbadores

 

João Anzanello Carrascoza: “Para escrever, é preciso primeiro ligar o silêncio dentro de nós”.

 
Márcio Vassallo
 
 
 
Na orelha do seu novo livro, publicado pela Record, a escritora Cíntia Moscovich escreve: “Com uma prosa suavíssima, neste Espinhos e alfinetes João Anzanello Carrascoza apresenta 11 contos nos quais mais uma vez demonstra a força inventiva e o apreço pela palavra exata e necessária ao momento – é admirável a precisão que alcança, virtude que só faz salientar a enorme carga de lirismo de sua ficção”. Com uma fundura absurda e uma poesia de dar nocaute, nos textos desse livro, você transita pelas belezas e pelos incômodos que atravessam a alma da gente ao longo da vida. Acima de tudo, os contos de Espinhos e alfinetes nasceram de incômodos que te trouxeram belezas, ou de belezas que te trouxeram incômodos?
João Anzanello Carrascoza - Estes contos nasceram das inquietações próprias da condição humana, mas que, desta vez, me afetaram mais, como as perdas, as rupturas, as mortes (ou a sua inevitável iminência) de pessoas queridas. Incômoda – e ao mesmo tempo bela – é a nossa condição, porque, de certa forma, faz parte da felicidade atual a dor que a substituirá. Assim como faz parte das nossas aflições o alívio futuro que as amenizará. Fernando Pessoa bem definiu em um verso essa contradição: “não é alegria nem dor a dor com que me alegro”. O narrador das histórias de Espinhos e alfinetes é movido o tempo todo por este sentimento. Para ele, a vida, embora sublime, dói.
 
Cíntia Moscovich também nos lembra que a grande maioria das suas narrativas gira em torno à perda da inocência. “É gente moça que vai criando a casca para a vida e que aprende o que há de pueril em todas as felicidades”, escreve a autora. Para você, o que há de mais pueril em todas as felicidades, João?
Carrascoza - Acreditar que elas são definitivas, que perduram no corpo e na memória para sempre, enquanto, sabemos, são felicidades exatamente porque são finitas.
 
Pensamento seu: “Narro uma história para que a dor de meu leitor seja esquecida por alguns instantes, e que ele possa ter contato com a minha experiência”. Tocar na dor para suavizá-la é uma arte. De onde vem essa sua vontade de mexer em espinhos e alfinetes?
Carrascoza - A cada passo que damos, a cada dia vivido, encontramos espinhos e alfinetes pelo caminho. Alguns, os espinhos, são frutos da nossa natureza; outros, os alfinetes, nós que os inventamos, dando-lhes forma na convivência com os outros. Não há como esconder os ferimentos que nos causam. Enfrentar a dor com as palavras é uma maneira de distraí-la. Mas, assim como o personagem de Faulkner, em Palmeiras selvagens, prefiro a dor ao nada.
 
No conto que abre o livro, Espinho, você escreve: “Com André o mundo se mostrava em novidades, o mundo acordava, e os dias, qualquer um e todos, eram dias de lembrar o que os olhos esqueciam no costume de ver demais (...).” Que costumes geralmente nos tiram a capacidade de ver?
Carrascoza - O que mais nos impede de ver o que há para ser visto é a pressa, a impaciência, a ansiedade. Desejamos tudo ao mesmo tempo. Buscamos sorver a vida de uma só vez, numa única talagada. Mas a vida é aos trechos. A vida é aos poucos.
 
Será que existe segredo para dar apuro no olho?
Carrascoza - Quem sabe o segredo seja olhar primeiro para nós mesmos, sem medo ou condescendência, e, assim, descobrir e aceitar as nossas limitações. Se sabemos o grau da nossa miopia, podemos tentar corrigi-la para ver melhor o mundo.
 
O final do conto Poente, que sugere a separação de um casal, é um dos seus achados mais luminosos. Em geral, quando é que você percebe que terminou uma história, e quando é que você percebe que uma história começou?
Carrascoza - Percebo que uma história vai começar, quando sou dominado por uma emoção que me pede para revivê-la por meio das palavras, atualizando-a num personagem. Termino a história apenas quando sinto que fiz plenamente essa transferência. Escrever é reconstruir pelo texto as nossas emoções.
 
Espinhos machucam e protegem. Alfinetes espetam e seguram. Acima de tudo, o que te puxa mais para essas imagens?
Carrascoza - São imagens que nos lembram o mal e o bem que podemos causar a nós e aos demais. Quem pode nos ferir com mais dano, mesmo sem querer (quando morre, por exemplo) é sempre quem amamos.
 
No conto Da próxima vez, o narrador diz assim: “Mas o tempo, o tempo, só nos damos conta de que ele já se foi, nunca de que ele está indo, o tempo não nos deixa perceber seu acontecimento”. Em que momentos do seu dia você sente que está realmente aproveitando o tempo?
Carrascoza - Quando estou diante das pessoas, entregando-me de fato a elas, vivendo junto as coisas miúdas, ciente de que aquele momento jamais retornará. Ou quando estou escrevendo, que é um outro jeito de agradecer a elas a dádiva por estarmos ali.
 
Definitivamente, quais coisas são uma verdadeira perda de tempo para você?
Carrascoza - Tudo o que está fora do que respondi na pergunta anterior.
 
Em 2009, você participou do programa de escritores residentes do Château Lavigny, na Suíça, onde terminou de escrever Espinhos e alfinetes. O que é o Château Lavigny, como você foi convidado para participar desse programa, e de que forma você acha que esse período na Suíça influenciou o seu trabalho?
Carrascoza - O Château Lavigny é uma casa de campo às margens do lago Genebra, que pertencia a um famoso editor alemão. Ele a doou, bem como a sua fortuna, a uma fundação que a mantém, promovendo um encontro anual de escritores durante a primavera. Era esse o seu desejo em testamento e assim vem sendo há algumas décadas. O Château é uma das mais respeitadas residências de escritores da Europa, e a sua localização, em meio aos vinhedos nos alpes suíços, é ideal para a imersão criativa. Você pode ser convidado pela fundação para uma sessão lá, porque alguém da comissão descobriu a sua obra, ou pode se submeter à seleção. Para mim, foi um período fecundo, no qual, além de me dedicar integralmente à produção e revisão dos contos de Espinhos e alfinetes, pude conviver com escritores do Egito, Canadá, China e França e, sobretudo, comigo mesmo.
 
Antes, em 2006, a convite da Art Omi International Arts Center, você participou como escritor-residente do Programa Ledig House/International Writer´s Colony, nos Estados Unidos. De que modo o Brasil poderia realizar programas desse tipo?
Carrascoza - Várias fundações artísticas poderiam promover tal iniciativa por aqui. Mas, entre nós, à literatura costuma-se reservar as menores verbas de fomento.
 
Você já ganhou um bocado de prêmios, entre eles o Jabuti e o Guimarães Rosa/Radio France. Mais do que tudo, o que um prêmio significa para você, e o que um prêmio não significa para você?
Carrascoza - Significa que os meus contemporâneos estão notando a qualidade de minha obra. Mas, diante de um mundo de interesses extra-literários, em geral não significa nada.
 
Além de escritor, você é redator de propaganda e professor universitário. Será que o redator costuma se meter com o escritor, será que o escritor costuma se meter com o redator?
Carrascoza - As águas inevitalmente se misturam, embora eu esteja sempre vigilante para extrair dessa mescla só o que é mais precioso. 
 
De que modo a literatura te inspira no teu trabalho de professor?
Carrascoza - O tempo todo eu utilizo a literatura para ensinar publicidade. A tese de doutorado que defendi anos atrás, depois transformada no livro Razão e sensibilidade no texto publicitário, é justamente sobre anúncios que contam histórias. Um comercial de tevê, ou um spot de rádio, é uma narrativa em 30 segundos. Incluir elementos próprios da ficção literária para ensinar o ofício publicitário é um dever.
 
Frase sua: “Para mim, a literatura é uma espécie de declaração de amor”. Em que momentos você tem essa sensação bem nítida?
Carrascoza - Em dois momentos: quando estou escrevendo. E quando alguém manifesta a sua gratidão pelo que encontrou nos meus textos.
 
Você de novo: “Escrevo para partilhar com meu semelhante a aventura de existir”. O que a aventura de existir tem de mais sedutora, mais perigosa e mais irresistível para você?
Carrascoza - A aprendizagem sobre si, os outros e os mecanismos do universo. Platão dizia que já sabemos de tudo, mas, ao nascer, nos esquecemos. Aprender, portanto, é relembrar. E não existe nada mais espantoso que tomar consciência das coisas.
 
Mais uma frase sua: “A literatura é uma entrega”. O que é essencial para que você se entregue à literatura quando está escrevendo?
Carrascoza - Que eu tenha uma história para contar.
 
O que é essencial para que você se entregue à literatura quando está lendo os textos de outros escritores?
Carrascoza - Que esses textos transbordem de vida, que as dores e as maravilhas da nossa existência estejam ali.
 
Em outro belo livro seu de contos, O volume do silêncio, publicado pela CosacNaify , o crítico Alfredo Bosi escreve na orelha: “Os contos de João Anzanello Carrascoza já foram apreciados por alguns dos melhroes narradores da sua geração: Luiz Ruffato, Cristovão Tezza e Nelson de Oliveira souberam captar aspectos relevantes da sua obra. Duas palavras recorrem nos seus comentários, e ambas fazem justiça ao modo de compor e ao sentido profundo dos textos de Carrascoza: epifania e encontro, às quais convém acrescer uma terceira: silêncio”. Qual volume do silêncio mais te seduz?
Carrascoza - O mais alto possível. Quanto mais silêncio, mais nítida será a minha voz, ou o grito de alguém que ela deve levar. Quando queremos ouvir tudo ao nosso redor, ficamos em silêncio. Quando estamos perdidos, a primeira coisa que fazemos é desligar o rádio. Para escrever, é preciso primeiro ligar o silêncio dentro de nós.  
 
No posfácio desse livro, o autor Nelson de Oliveira define bem a presença do silêncio na tua literatura: “Para os budistas o silêncio é neutro. Nem branco nem negro, nem certo nem errado, nem doloroso nem prazeroso. O que diferencia a prosa de Carrascoza de boa parte da literatura contemporânea – falo da parcela mais ruidosa, sintonizada com a ansiedade e o frenesi contemporâneos – é a presença desse silêncio neutro. Não se trata do silêncio mudo, da ausência de som típica da depressão ou do vácuo. Trata-se do silêncio eloquente que reveste o mistério de que somos feitos. Os contos de Carrascoza entram na quietude, agitam qualquer coisa sonora que há lá no fundo e fazem o silêncio falar”. O que o silêncio te diz por dentro das palavras, o que as palavras te dizem por dentro do silêncio?
Carrascoza - O silêncio diz o que eu sou. As palavras, o que eu posso ou não ser.
 
De volta para Espinhos e alfinetes. No conto Aqui perto, você nos apresenta um garoto que vai passar uns dias na casa dos primos, em outra cidade. Primeiro ele sofre porque não quer ir. E quando está lá, depois das inesquecíveis experiências que vive, sofre porque não quer voltar. “Se viver pedia larguezas ao menino, doía tudo o que nele aumentava”, você escreve. “E crescer era aquele povoar-se, aos poucos, de contrariedades”. Dizem que a dor e o sofrimento nos fazem crescer, como se a alegria e a felicidade não nos amadurecessem de forma alguma. Na sua opinião, acima de tudo, o que nos faz crescer?
Carrascoza - A compreensão de que o mundo não é como desejaríamos que fosse. Que tem leis complexas e independe do nosso querer, das nossas crenças. Mas nada nos obriga mais a crescer que a certeza da finitude. E isso pode ser catalisado não só pelos sofrimentos, mas também pelas alegrias. Afinal, elas também terminam.
 
O conto Alfinete é um dos que mais me perturbaram e mais me deixaram em estado de poesia, pela intensidade de cada trecho. Você conta a história de um homem que acaba de ficar viúvo e tem de aprender a lidar com essa falta, junto com o filho pequeno, que ficou sem a mãe. Escolhi essa sua cena para a gente conversar.
 
Entrei no quarto dele devagar e me aproximei da sua cama. Ignorava como acordá-lo; era sempre ela quem o fazia, com suas delicadas palavras e seus gestos macios.
 
Na minha falta de jeito, receoso de me exceder nas levezas, corri os dedos pelos seus cabelos e sussurrei, Filho!
 
Ele se moveu, bruscamente, como se cada despertar seu, a partir dessa manhã, fosse sempre um susto.
 
Porque também era o seu primeiro dia.
 
E, antes mesmo que ele acordasse inteiro, eu sabia o quanto a falta dela lhe doía.
 
Para você, que tipo de falta é mais excessiva?
Carrascoza - A de quem amamos.
 
Você já ficou, ou costuma ficar, receoso de se exceder em levezas?
Carrascoza - Sim. O limite entre nossas virtudes e nossas deficiências é um fiapo de nada.
 
Pela editora SM, você lançou O homem que lia as pessoas, um dos livros mais assombrosos, mais belos, mais fortes, mais poéticos, mais tiradores de sono, mais absurdos de bom que eu já li até hoje. É a história da relação mágica entre um pai e o seu filho. O pai usa a fantasia para se aproximar do filho e o ensina a olhar as pessoas. Sua história é realmente uma obra de arte, um afresco de palavras. O homem que lia as pessoas é uma prova preciosa do quanto a literatura de verdade é capaz de mexer com a alma da gente. Terminei de ler esse seu livro chorando e rindo ao mesmo tempo. Agora me diga, entre choros e risos, entre presenças e ausências, que imagens você mais guarda do seu pai?
Carrascoza - Estamos no quarto escuro, e eu não o vejo. Apenas ouço a sua voz, que me conta histórias para dormir. E, de repente, tudo se ilumina.
 
Em que aspectos ler pessoas é um aprendizado, uma vocação, um dom, uma herança, um exercício de todos os dias?
Carrascoza - Ler pessoas, começando por nós mesmos, é um aprendizado cotidiano, porque elas se escondem cada vez mais atrás de roupas, palavras, aparelhos. Ler as pessoas é a única maneira de descobrir a sua história, que é, no fundo, a coisa mais valiosa que têm.
 
“Contar histórias é um jeito de nos trazermos para as pessoas”, diz o narrador desse seu livro encantador. Em que momentos você sente que conseguiu se levar para as pessoas?
Carrascoza - Quando elas me leem e descobrem que estou lá, presente por inteiro, no texto.
 
Vamos falar a verdade, Carrascoza: você deveria ser preso por fazer homens crescidos chorarem, rapaz. Deveria ser preso em algum lugar para só escrever o tempo inteiro, sem se preocupar com mais nada. Mas talvez aí você não conseguisse escrever nada, concorda? Que lugar, mais do que todos, você precisa encontrar dentro de você mesmo para escrever?
Carrascoza - O lugar onde estão as pessoas e as coisas que amo e perdi.


  • 12 DE MARÇO DE 2015
  • 22 DE AGOSTO DE 2012

    Na estrada com Dodô Azevedo

    Autor lança Fé na estrada, pela Casa da Palavra, fala sobre a importância do olhar em nosso cotidiano e analisa o desafio de mostrar as tripas por meio da arte. "A estrada te tira qualquer traço de arrogância, e isso é o que ela tem de mais irresistível".

  • 07 DE AGOSTO DE 2012

    Sylvia Orthof para sempre

    Autora diz que Cinderela se casou por dinheiro e revela qual é o grande encanto dos sapos

  • 12 DE JULHO DE 2012

    ONDJAKI

    Com poesia e sensibilidade de iluminar sentimentos, o angolano Ondjaki entra nas texturas da infância e fala sobre o seu novo livro.

  • 26 DE JANEIRO DE 2012

    Fugu - Histórias de amor e sexo

    Em Duas bocas, romance erótico publicado pela Nova Fronteira, Fugu conta a história de um casal apaixonado por receitas afrodisíacas. Leia aqui nossa entrevista com ela.

  • 27 DE OUTUBRO DE 2011

    Adriana Lisboa - Com leveza e profundidade

    Recém chegada do Festival de Literatura de Buenos Aires – FILBA, Adriana Lisboa fala sobre seus belos livros, comenta a arte da simplicidade para emocionar leitores e revela o que é, para ela, um dia cheio de poesia.


Sobre a Agência Riff
imagem

Inaugurada em 1991, a Riff representa grandes nomes da literatura brasileira e as principais editoras e agências literárias estrangeiras no Brasil e em Portugal. Saiba mais.




2011 Agência Riff todos os direitos reservados - agenciariff@agenciariff.com.br Guilhotina Design